Chernobyl

Este é um rascunho e está sujeito a mudanças.

Um russo tudo fala na frente de um gravador. Em inglês. Ele prepara seis fitas cassete e deixa em um local premeditado para não serem descobertas pela KGB. Logo em seguida se mata. O clima de conspiração em plena União Soviética não impressiona mais. Na verdade é até esperado. Só não é esperado que russos falem em inglês.

Chernobyl é uma minissérie em cinco capítulos de cerca de uma hora cada narrando os acontecimentos reais de uma noite fatídica e os dias e meses seguintes em uma cidade que começa observando a beleza das cores no céu vindas de um incêndio na usina nuclear e termina enterrando seus mortos em concreto. Toda a ignorância de uma população a respeito dos assuntos do Estado vai sendo revelada aos poucos, conforme conhecemos as patentes do alto escalão de funcionários públicos do governo, burocratas e cientistas, os diplomas de uns não servindo aos propósitos políticos de outros.

Esta é uma série pesada, pois são acontecimentos que de fato abalaram o planeta enquanto a maior parte de nós já existia ou logo existiria. Dezenas de milhões de vidas em jogo e boa parte da Terra ameaçada por milhares de anos. Em uma escala que lembra filmes de catástrofes fictícias como um meteoro em Armageddon, o peso reside justamente no fato de que tudo que estamos vendo realmente aconteceu. E esta é uma oportunidade única para entendermos um peso ainda maior: o problema geopolítico.

Ainda que o filme tenha a cara do lugar onde se passa a história, a Rússia comunista, ou União Soviética, um conglomerado de burocratas jamais visto na história humana, este é um alerta para o perigo de manter o poder concentrado em qualquer lugar do mundo. O design de produção e os personagens centrais nos dão um tom orwelliano como a apontar a universalidade do alerta sobre o mundo que vivemos.

Porém, a série também explora, ainda que de maneira caricata, essa hierarquia alienígena entre o povo russo e os que estão no poder. Trocando os czares por burocratas amadores herdeiros dos bolcheviques, as distorções de uma estagnação econômica e aceleração tecnológica forçada de uma sociedade é vista a olho nu, e o acidente na usina nuclear se torna o único momento honesto para que isso acontecesse. E mais uma vez o sacrifício da classe trabalhadora. Não que eles já não estivessem acostumados em sua história.

O que torna Chernobyl também um exemplo universal é essa constante tensão entre os cientistas e os que estão no comando. A cortina de fumaça ainda está erguida, mas a imagem internacional da URSS começa a desmoronar conforme outros países acusam seu vizinho de espalhar radiação em seu território. Pouquíssimas pessoas estão verdadeiramente cientes do potencial desastre que pode ocorrer caso medidas drásticas não sejam tomadas no espaço de dias, e essa luta contra a realidade é travada entre inúmeras reuniões entre os burocratas e os heróis do filme, os únicos físicos cientes da magnitude da ocasião.

Por esses motivos essa é uma série que documenta a maioria dos eventos e personagens reais da História (ou presta homenagem a uma porção deles na figura de uma mulher física), e ao mesmo tempo presta a devida homenagem aos que se sacrificaram e foram vítimas desse desastre ecológico que merece ser lembrado pelo resto da história do planeta.

A direção é precisa em abordar a narrativa ficcional quase como um documentário, pois nos remete para a realidade das pessoas que se foram: as que moravam na áreas condenadas, os soldados e civis coordenados em uma leva de sacrifícios que vai desde a mergulhar abaixo da usina até limpar seu telhado em uma operação sincronizada. Há uma cena inicial no quarto episódio que além de nos dar de maneira definitiva a perspectiva do povo russo sob o olhar de uma anciã que viveu desde os czares, também acompanhamos no decorrer do mesmo episódio o abatimento de animais. A relação não é acidental.

Para abordar tudo isso de maneira realista a câmera gira em torno da ação, o design de produção recria boa parte dos cenários com uma precisão que evoca os anos 80 comunistas com primor e um quase saudosismo de uma época mais simples. As proporções da tragédia são colocadas com precisão por esse ritmo de filmagem.

Mas o que mais impressiona sempre é a trilha sonora. Ela é a melhor parte. Sempre distorcida, ela comenta cada estado de espírito do momento sem nos tirar esse momento. Ela apenas nos acompanha em nossos devaneios mais utópicos de um desastre além da compreensão humana, pois nada se vê. É um determinismo científico invisível que devemos acreditar, mas a mobilização das pessoas e a música distorcida nos faz abraçar o contexto.

O roteiro está recheado de frases de efeito que reverberam até a cena seguinte. Não há pressa entre as cenas porque entendemos a profundidade de cada momento, seja para a posteridade histórica ou para entendermos o que esse acidente em particular tem a dizer sobre a humanidade, seus governos, suas próprias falhas cognitivas. Muito se fala sobre a importância de se dizer a verdade, e isso fica cada vez mais evidente conforme se caminha para o final e observamos que uma série como essa demorou meio século para ser produzida, e muitas mentiras, como a radiação, pairam sobre o ar russo, sobre a nova política da autoridade acima da ciência.

draft series