Cicatrizes

Em um ano, há mais de 500 crianças desaparecidas na Sérvia, mas essa é uma banal estatística exibida nos créditos finais de Cicatrizes, prêmio do público no Festival de Berlim e agora na Mostra de São Paulo. Ela não nos diz nada sobre as famílias que aguardam eternamente por essas crianças. E o que dirá, então, dos que vivem um luto que pode não ter acontecido.

Mais do que remoer o passado, a direção de Miroslav Terzic demonstra em seu filme um absoluto controle de nossas percepções mais básicas da realidade. Aproveitando ao máximo o econômico e eficiente roteiro de Elma Tataragic, a falta de diálogos na maior parte do tempo é porque tudo que teve que ser dito nesses 18 anos de luto pelo bebê perdido já foi dito, e por isso prestamos atenção completa nessa mãe, Ana (Snezana Bogdanovic) que já não tem mais palavras, e que caminha incessantemente em busca da resposta verdadeira sobre o paradeiro do seu filho, dado como morto após o parto, mas cujo corpo nunca foi revelado.

O que o filme quer que sintamos não se traduz em palavras. Por boa parte do tempo é o peso enorme carregado por Ana, que acorda todos os dias sem uma resposta satisfatória do destino de seu filho. Ela realiza mecanicamente suas tarefas do dia. E no dia do aniversário de 18 anos, recebe alguns sinais, inuitivos e objetivos, de que deve retomar sua busca, e com isso vamos desvendando seu passado ao mesmo tempo que nos conectamos com seu presente: é como se sua vida estivesse suspensa todo esse tempo. É angustiante, pavoroso e inesquecível.

Miroslav Terzic a coloca em primeira pessoa boa parte do tempo, porque ela é responsável pela nossa percepção por boa parte do tempo, embora não seja a única. A transição final que é feita entre a visão de diferentes personagens da história é linda, pois é transparente, e sentimos apenas nos momentos finais. Há um momento que sua filha toma as rédeas da investigação conduzida por Ana, mas não há estranheza do espectador, mas alívio, pois finalmente o peso de Ana começa a ser dividido com sua família. Esta é a história da busca de uma mãe atormentada, mas se universaliza no seu terceiro ato.

Cicatrizes também é uma luta do indivíduo contra um sistema impessoal, engessado e corrupto. Boa parte do filme vemos Ana caminhando, minúscula, através de imensos corredores, prédios imponentes, guichês vazios. Ela transita por velhos e novos caminhos e não dá ouvidos a ninguém que a tente dissuadir ou mesmo ameaçar. Mas sua família e amiga estão cansados de ver esta mulher ausente por tanto tempo, e não se pode julgá-los. Um acontecimento traumático desses pode consumir o resto da vida de uma pessoa, definir a sua existência. Por isso se torna tão importante a luta de Ana.

Os recursos que ela dispõe para investigar o caso de seu filho são quase inexistentes, o que cumpre múltiplas funções, desde a economia na complexidade da trama, onde o resultado de uma busca da base de dados do hospital pode mudar toda sua vida, até a facilidade com que a corrupção se instala em todos os lugares em que ela clama por uma resposta, seja o hospital ou até mesmo a ineficiência policial, o que acaba sendo um tipo de injustiça.

Cicatrizes é um retrato simples, mas tenso e efetivo, que ilustra uma situação da vida de muitas pessoas. E guarda um verdadeiro tesouro em sua cena final, um movimento sutil que é a cereja do bolo que assina um trabalho impecável do cinema em trazer a impressão exata da arte de extrair significados complexos em banais imagens em movimento.

Wanderley Caloni, escrito para ou com a ajuda de Cinemaqui, 2019-10-12 00:00:00 +0000

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