Cidade Baixa

Deve ter dado um baita trabalho filmar as cenas de Salvador. Imaginei a equipe tentando isolar os mendigos, vendedores e a horda de pedintes das ruas fedidas do centro soteropolitano.

Aquele inferno turístico é um desafio à altura do diretor e roteirista Sérgio Machado, que junto de três talentos natos da cinematografia nacional cria um dos poucos trisais que soa realista enquanto inconclusivo.

A história só existe porque esses três são criaturas inferiores de sua espécie, exceto pela amizade dos dois homens. Eles fazem qualquer serviço em seu barco, mas como em todo filme brasileiro os negócios andam mal e eles são forçados e atuar no crime e ilegalidade em vez de ir pescar.

No caminho para Salvador pegam uma puta de carona, e quem diria: a sobrinha da Sônia Braga. Alice está jovenzinha e delicinha. Ela exala luxúria de uma maneira suja, o que combina com a cidade.

Wagner Moura e seu bigodinho maroto que mantém desde a série Narcos faz o personagem branco e barrigudo. Um pouco imoral que equilibra com lealdade, seu personagem é o terceiro pé dessa mesa.

O segundo pé é Lázaro Ramos, com mais presença e energia. Ele é o personagem cotista. Negro e vítima de racismo, ele só não se dá mal graças à lealdade do seu amigo. Há um vínculo sagrado entre esses dois, o que torna a paixão mútua pela rapariga insuportável.

É nesse equilíbrio delicado que Cidade Baixa se desenvolve, ou melhor dizendo, não se desenvolve. Seus personagens estão estagnados. Sua situação sócio-econômica é idêntica à da maioria dos chineses no mundo, mas por estarem em um filme brasileiro algo parece vitimizá-los apenas por existirem.

Filmado entre sombras como que para mostrar que são figuras do submundo em uma metrópole do submundo, o filme exibe um certo controle sobre nossas atenções até ficar longo demais. Quando fica claro que a questão do filme é mais simples do que parece o terceiro ato se desenrola com a catarse óbvia.

Wanderley Caloni, 2022-07-11 20:42:06 -0300

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