Cinema Paradiso

Wanderley Caloni, 2020-05-10.

Este era meu filme favorito absoluto na época do video-cassete. Já o assisti no cinema e em casa. Devo ter visto umas sete vezes, e duas a versão estendida, que não recomendo. Ela foi a versão exibida inicialmente nos cinemas, mas depois de fracassar com o público, prestes a ser levado a Cannes, os produtores decidiram fatiar meia-hora de projeção e entregar um resultado mais ambíguo, mais parecido com a vida real, onde os amores da juventude se vão e nunca mais voltam. O resultado é conciso e coerente com um arco dramático que presta uma homenagem ao Cinema Italiano, e de certa forma ao cinema como um todo, como nenhum outro filme jamais arriscou. Porém, seu terceiro ato é melancólico e pode ferir as almas mais doces. É um filme que apela para a emoção mais primitiva, mas com um pé no chão fica mais difícil de voar.

Este é o segundo longa do cineasta siciliano Giuseppe Tornatore e já vemos tudo o que precisamos ver em seu estilo neste filme. Bruto, mas apaixonado, Tornatore não ignora suas raízes, mas as exalta, e se trabalhos mais "recentes" como Baarìa - A Porta do Vento demonstram com exatidão seu sentimento megalomaníaco por trás da produção e direção, sempre disposto a elevar seus trabalhos ao nível de épico, não importando quanto dinheiro estiver à disposição, em Paradiso o dinheiro e o produtor Franco Cristaldi o mantém sob controle, e com isso lhe entrega prêmios por todo o mundo, incluindo Cannes e Oscar, unindo tanto o lado crítico quanto comercial de um projeto que parece encantador à primeira vista, mas em revisitas percebemos que ele também é muito difícil de ser degustado seriamente, pelos seus contornos complexos que a vida pode ser intepretada à luz do cinema.

Esse é daqueles trabalhos que por comparação é o Cidade de Deus do Meirelles, um filme que depois de terminado sua equipe evita a todo custo olhar para trás, assistir à película. É desgastante ao mesmo tempo que recompensador. As lentes do filme apontam para este momento de nostalgia e declínio do cinema italiano pós-segunda guerra em uma mistura entre lúdico e cômico. É arrebatador. Não há cineasta que mantém um coração batendo dentro de si que assista a esse filme e não se emocione, nem que seja na cena final. Ou na dedicação onisciente de uma mãe siciliana que mesmo à distância sabe como está o filho, e sabe que ele se lembrará quando tenta avisar o dia inteiro da morte de seu melhor e eterno amigo Alfredo.

Alfredo é interpretado pelo ator francês Philippe Noiret como o urso bondoso e sábio que dá conselhos sobre a vida desde seu início a Totó, o garoto que mais lembra um ratinho de tão pequeno e sagaz. Totó é interpretado por um ator cujo apelido na vida real é Totó, e seu nome é o mesmo do protagonista, Salvatore. Isso foi visto como o sinal definitivo para que o diretor o escalasse entre uma dezena de garotos. E ele é perfeito para o papel. Suas expressões, sua dinâmica com Alfredo e seu jeito um tanto fantasioso de enxergar a vida cabe perfeitamente como representante de todos os amantes do cinema.

É impossível falar de Paradiso sem citar a trilha sonora icônica e inesquecível de um dos maiores gênios musicais cinematográficos. Ennio Morricone costuma ser sutil quando precisa, mas este filme exige ser ouvido durante todo o tempo. Então ele cria um tema musical que pode ser tocado todo o tempo sem enjoar. Dias depois de assistir ao filme, meses, talvez anos, a música não será apenas inesquecível: ela se torna a trilha sonora de nossas próprias vidas como cinéfilos. Ela é empolgante, melancólica, alegre, emocionante. É uma música que sofre metamorfose pelas décadas da história do filme, e em nós mesmos sofrerá essa mesma mudança conforme a ouvirmos em épocas diferentes de nossa vida. O mesmo efeito percebemos no filme que a música embala.

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