Cinema Paradiso

2020-05-10 · 4 · 654

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Este era meu filme favorito absoluto na época do video-cassete. Já o assisti no cinema e em casa. Devo ter visto umas sete vezes, e duas a versão estendida, que não recomendo. Ela foi a versão exibida inicialmente nos cinemas, mas depois de fracassar com o público, prestes a ser levado a Cannes, os produtores decidiram fatiar meia-hora de projeção e entregar um resultado mais ambíguo, mais parecido com a vida real, onde os amores da juventude se vão e nunca mais voltam. O resultado é conciso e coerente com um arco dramático que presta uma homenagem ao Cinema Italiano, e de certa forma ao cinema como um todo, como nenhum outro filme jamais arriscou. Porém, seu terceiro ato é melancólico e pode ferir as almas mais doces. É um filme que apela para a emoção mais primitiva, mas com um pé no chão fica mais difícil de voar.

Este é o segundo longa do cineasta siciliano Giuseppe Tornatore e já vemos tudo o que precisamos ver em seu estilo neste filme. Bruto, mas apaixonado, Tornatore não ignora suas raízes, mas as exalta, e se trabalhos mais “recentes” como Baarìa - A Porta do Vento demonstram com exatidão seu sentimento megalomaníaco por trás da produção e direção, sempre disposto a elevar seus trabalhos ao nível de épico, seja com quanto dinheiro tiver à disposição, em Paradiso o dinheiro e o produtor Franco Cristaldi o mantém sob controle, e com isso lhe entrega prêmios por todo o mundo, incluindo Cannes e Oscar, unindo tanto o lado crítico quanto comercial de um projeto que parece encantador à primeira vista, mas em revisitas percebemos que ele é difícil ao mesmo tempo pelos contornos complexos que a vida pode ser intepretada à luz do cinema.

Esse é daqueles trabalhos que por comparação é o Cidade de Deus do Meirelles, um filme que depois de terminado sua equipe evita a todo custo olhar para trás, assistir à película. É desgastante ao mesmo tempo que recompensador. As lentes do filme apontam para este momento de nostalgia e declínio do cinema italiano pós-segunda guerra em uma mistura entre lúdico e cômico. É arrebatador. Não há cineasta que mantém um coração batendo dentro de si que assista a esse filme e não se emocione, nem que seja na cena final. Ou na dedicação onisciente de uma mãe siciliana que mesmo à distância sabe como está o filho, e sabe que ele se lembrará quando o tenta avisar o dia inteiro da morte de seu melhor e eterno amigo Alfredo.

Alfredo é interpretado pelo ator francês Philippe Noiret como o urso bondoso e sábio que dá conselhos sobre a vida desde seu início a Totó, o garoto que mais lembra um ratinho de tão pequeno e sagaz. Totó é interpretado por um ator cujo apelido na vida real é Totó, e seu nome é o mesmo do protagonista, Salvatore. Isso foi visto como o sinal definitivo para que Tornatore o escalasse entre uma dezena de garotos. E ele é perfeito para o papel. Suas expressões, sua dinâmica com Alfredo e seu jeito um tanto fantasioso de enxergar a vida cabe perfeitamente como representante de todos os amantes de cinema.

É impossível falar de Paradiso sem citar a trilha sonora icônica e inesquecível de um dos maiores gênios musicais cinematográficos. Ennio Morricone costuma ser sutil quando precisa, mas este filme exige ser ouvido durante todo o tempo. Então ele cria um tema musical que pode ser tocado todo o tempo sem enjoar. Dias depois de assistir ao filme, meses, talvez anos, a música não será apenas inesquecível: ela se torna a trilha sonora de nossas próprias vidas como cinéfilos. Ela é empolgante, melancólica, alegre, emocionante. É uma música que sofre metamorfose pelas décadas da história do filme, e em nós mesmos sofrerá essa mesma mudança conforme a ouvirmos em épocas diferentes de nossa vida. O mesmo efeito percebemos no filme que a música embala.

Cinema Paradiso (Italy, France, 1988). Dirigido por Giuseppe Tornatore. Escrito por Giuseppe Tornatore, Vanna Paoli, Richard Epcar. Com Antonella Attili, Enzo Cannavale, Isa Danieli, Leo Gullotta, Marco Leonardi, Pupella Maggio. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·