Collective

Chegamos na vigésima-quinta edição de É Tudo Verdade, um festival internacional de documentários criado em São Paulo nos anos 90 e que hoje é referência mundial, sendo o único a tornar elegível para o Oscar dois longas-metragens e dois curtas no mesmo evento. Sua seleção passa pela análise de mais de dois mil filmes do mundo todo. Estive na coletiva de imprensa antes de iniciar a sessão de um dos quase cem filmes selecionados este ano: Collective, de Alexander Nanau, sobre a corrupção estarrecedora que é descoberta na rede de hospitais na Romênia após um incêndio em uma boate ter matado mais jovens que foram hospitalizados do que no próprio local.

O filme vai de encontro ao exame clínico que artistas de todo o mundo vem realizando sobre os governos nos tempos atuais, mas diferente do "senso comum" de hoje em dia, este não é um governo de extrema direita com tendências fascistas, mas um governo populista, social-democrata, que faz no sistema de saúde um cambalacho amparado pelo Estado de dar inveja às maracutaias reveladas desde o início da Operação Lava Jato. Porém, este é um trabalho quase apartidário, embora não esconda sua frustração próximo do final, ao perceber que sua população completamente alienada sobre quem são os reais culpados da tragédia do filme vota mais uma vez, e com mais ênfase, no "lado errado".

O herói desta odisseia em busca dos fatos é um jornalista do jornal de esportes mais lido no país, a Gazeta Sporturilor, que você nunca deve ter ouvido falar, mas que passados quinze minutos de filme você se pergunta por que nunca ouviu falar (dica: não é um governo de extrema direita). Quando ele e sua equipe investigativa descobrem que os desinfetantes vendidos para o hospital onde os jovens vítimas do incêndio ficaram internados está sendo diluído na razão de 1 para 10, causando infecções por bactérias letais em todos que passaram por cirurgias, a imprensa se torna a principal força contra os abusos do poder, derrubando o governo e mantendo a confiança da população em suspenso até as próximas eleições em seis meses, quando existirá uma luta entre discurso e fatos.

O diretor romeno Alexander Nasau, que também é diretor de fotografia, editor, produtor e roteirista, realiza aqui um filme tenso, que joga novas informações após as anteriores terem sido mastigadas parcialmente pelo espectador. A sensação de descrença vai sendo alimentada conforme somos apresentados ao completo descaso das autoridades políticas frente a esta crise governamental, em que a população em geral se torna vítima de um sistema mafioso completamente alheio à democracia, onde não se pode acreditar em nenhum lado: nem nos diretores dos hospitais, elegidos como cargo de confiança pelo governo, nem nos laboratórios, que realizam testes para se defender das acusações de por que morreram tantos pacientes com queimaduras médias, mesmo que em qualquer outro lugar do mundo isso não deveria acontecer.

Este é um filme de eventos, embora Nasau arrisque criar uma dicotomia entre seu herói, o jornalista Catalin Tolontan, e todos os representantes do sistema estatal ou seus aliados pertencentes ao esquema de suborno e corrupção. Mas ele não faz isso propositalmente. Nem é necessário. Basta observar os esforços hercúleos dos jornalistas em conseguir levantar suas fontes, comparar os dados e esfregar na cara das autoridades os inegáveis fatos sobre o estado deplorável do hospital onde a maioria dos jovens faleceu semanas depois por causa do tratamento após a noite do incêndio, incluindo larvas passeando pelo rosto de um paciente (ainda vivo, diga-se de passagem).

Não, este definitivamente não é um filme de personagens. Nanau perde a oportunidade de enfocar o novo ministro da saúde como um jovem despreparado criado no exterior. Ele nem precisa, pois nós vamos aos poucos percebendo a sua realidade. Percebe como a manipulação é desnecessária, e mesmo sem o mínimo esforço em ficcionalizar este drama ainda assim somos levados a comprar essa história da vida real como se ela fosse esculpida na sala de montagem, e roteirizada nos porões mais sujos e fétidos do sistema estatal.

As filmagens são conduzidas como que em tempo real, e depois montadas com uma fluidez impressionante. É como se tudo estivesse acontecendo em um espaço de tempo de uma semana, e cada novo evento está exposto em diálogos rápidos compostos com cortes precisos. Nada está sobrando nem é posto por acaso neste filme. Sua longa duração é a tentativa mais que merecida em explorar junto do espectador as sensações do cansaço mental quando se tenta dar murro em ponta de faca. Esta poderia ser uma ficção da luta contra o sistema, mas é muito real e muito imediato para ser apenas fruto da imaginação de um autor. Ele não perde nada para outros trabalhos ficcionais recentes, como o ótimo Segredos Oficiais, com Keira Knightley e Ralph Fiennes (ainda inédito no Brasil, passou na Mostra do ano passado), justamente por entender que os olhos de quem assiste deve estar sempre amparado pelas pessoas comuns que tentam tornar este mundo um lugar melhor. Ou pelo menos mais justo.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2020-03-10 00:00:00 +0000

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