Community

Wanderley Caloni, 2020-08-19

Não sei se gosto de Community tanto quanto a primeira vez, uns dez anos atrás. Um de nós três deve ter envelhecido, e não de uma maneira boa: eu, a série ou a sociedade.

As brincadeiras da série em torno do politicamente correto giram confortavelmente no limite do aceitável. E, no pior dos casos, sempre temos Pierce, o velho incorrigível, para fazer os comentários racistas e homofóbicos. Porém, se quando lançada, a série usava esses termos quase como jargões fora do mainstream, gerando um certo ar de estranheza para quem mora fora dos EUA, hoje nosso comportamento, ou ao menos o da sociedade americana, é pautado nesses conceitos. O Grande Irmão está firme e forte por lá. Até nas faculdades há folhetos que correm entre as mãos sobre conceitos como "microagressōes", e um professor recentemente foi demitido por fazer uma brincadeira sobre esse material. A liberdade de expressão tão elogiada nos EUA é cerceada inconscientemente nessa geração, como se julgamentos verbais fossem um ataque à propriedade privada.

Community não pertence a nada disso. É uma comédia leve e que se diz inteligente por ter um roteiro tão dinâmico e tão metalinguagem. Quando você usa metalinguagem você só pode ser uma pessoa inteligente, certo? A primeira temporada tem bons e maus episódios como qualquer série, mas os bons são muito bons e os maus são apenas experimentação. Experimentar com o humor é delicado, mais ainda que dramas, e eis a força de uma série que se reinventa a cada minuto. Comparada a fórmulas de sitcoms como Friends chega a ser ofensiva, e mesmo séries que confiam no carisma de sua proposta, como High School Musical, apenas confiam nessa premissa inicial e todo o resto segue no piloto automático.

Community não. Seus personagens são bons para os diálogos que possuem, mas são particularmente ótimos por causa do seu elenco e das consequência da atuação empenhada de cada um de seus membros. Eles não estão trabalhando como atores que precisam pagar boletos. Este não é um clima leve como The Big Bang Theory. Eles estão construindo comédia aqui. É pesado, é dramático. Cada rápida expressão inesperada, que oscila entre os extremos Abed e Annie, é uma gota de suor que cai de um projeto ambicioso que explora até quando podemos fazer humor sem se preocupar em ofender alguém, mas em entender por que existe a ofensa quando o mundo pode ser um lugar tão bom a ponto de existir comédias como essa.

A série na primeira temporada se revela numa crescente ingênua e ambiciosa. A direção é fresca e cheia de novidades que acabam esgotando suas ideias e partindo para o verdadeiro herói da história: Abed e seu um milhão de olhos, ou lentes, que observa as décadas passadas na TV e no cinema e nos apresenta em versões de vinte minutos, com qualidade invejável, cores chamativas, sensuais e divertidas. Community nunca irá envelhecer, pois é incapaz de se levar a sério. E por isso mesmo é a série de humor mais íntegra, completa e versátil de todas.

Porém, olhando para as últimas temporadas, quando seu elenco vai se despedindo aos poucos, é possível perceber por que aquelas sete pessoas conseguiam fazer comédia tão bem, e por que simplesmente trocar personagens não funciona com todos os roteiros, diferente do elenco original. Ao mesmo tempo revela o cansaço dos nossos tempos, o peso do politicamente correto, incrustrado na sociedade desde o início do século. A última temporada de Community é uma alfinetada metalinguística profunda demais para ser percebida, mas está lá, para quem quiser analisar.

Pegue o episódio Analysis of Cork-Based Networking como exemplo, na quinta temporada. A espiral de corrupção encontra o protecionismo norte-americano, onde na Califórnia se chega ao cúmulo de haver um alvará para arrumador de flores. A persona de Jonathan Banks se encaixa perfeitamente no papel que ele e Alison Brie protagonizam de lutar para tirar a lama das engrenagens do sistema, mas falta aquela faísca que apenas o timing de Chevy Chase, mesmo sem muitos diálogos, conseguia nos brindar. A mesma faísca falta na participação de Abed, de volta com seu par romântico interpretado por uma irreconhecível Brie Larson (Capitã Marvel). O roteiro é esperto, mas nos faz lembrar o que um casting e direção inspirados não fazem juntos. Este é o último episódio antes da paralisação para as olimpíadas de inverno.

Já em toda sexta e última temporada, qualquer episódio servindo como exemplo, o péssimo casting de Paget Brewster e Keith David estragam qualquer possibilidade da química que antes era inerente na série funcionar. Enquanto Brewster luta para conseguir um pingo de simpatia em sua irrelevância, a função de Keith David é nos fazer sentir falta do que é um ator de comédia em seu ápice como Chevy Chase, um ator para quem se pode entregar qualquer fala para torná-la hilária. Não pela fala em si, mas por tudo o que a persona de Chase investe em seu personagem.

Note como o tema do racismo, tão frequente no início, sequer é colocado em pauta agora. Vira uma piada leve de vez em quando. Não porque as pessoas não falem mais sobre isso lá fora, mas justamente porque essa discussão virou tão mainstream que existe uma cartilha das maneiras corretas de se abordar o tema. Ou seja, se tornou um assunto completamente inútil para se trabalhar uma comédia, que brilha justamente em trazer à tona situações absurdas que ocorrem quando tentamos nos proteger de qualquer coisa do mundo adulto.

Community era uma aula de como crescer em comunidade mesmo sem ter a mínima noção de como fazer isso. Independente dos fracassos em série na vida desses personagens, o mais importante era trazer a noção de que todo mundo consegue falar e agir sobre algo difícil. Community era um plano de ação. Agora foi podado pela polícia do pensamento. Um triste fim que serve como metalinguagem para o que se vive em nossos tempos.

series discuss