Community

2020-06-07

Não sei se gosto de Community tanto quanto a primeira vez, uns dez anos atrás. Um de nós três deve ter envelhecido, e não de uma maneira boa: eu, a série ou a sociedade.

As brincadeiras da série em torno do politicamente correto giram confortavelmente no limite do aceitável. E, no pior dos casos, sempre temos Pierce, o velho incorrigível, para fazer os comentários racistas e homofóbicos. Porém, se quando lançada, a série usava esses termos quase como jargões fora do mainstream, gerando um certo ar de estranheza para quem mora fora dos EUA, hoje nosso comportamento, ou ao menos o da sociedade americana, é pautado nesses conceitos. O Grande Irmão está firme e forte por lá. Até nas faculdades há folhetos que correm entre as mãos sobre conceitos como “microagressōes”, e um professor recentemente foi demitido por fazer uma brincadeira sobre esse material. A liberdade de expressão tão elogiada nos EUA é cerceada inconscientemente nessa geração, como se julgamentos verbais fossem um ataque à propriedade privada.

Community não pertence a nada disso. É uma comédia leve e que se diz inteligente por ter um roteiro tão dinâmico e tão metalinguagem. Quando você usa metalinguagem você só pode ser uma pessoa inteligente, certo? A primeira temporada tem bons e maus episódios como qualquer série, mas os bons são muito bons e os maus são apenas experimentação. Experimentar com o humor é delicado, mais ainda que dramas, e eis a força de uma série que se reinventa a cada minuto. Comparada a fórmulas de sitcoms como Friends chega a ser ofensiva, e mesmo séries que confiam no carisma de sua proposta, como High School Musical, apenas confiam nessa premissa inicial e todo o resto segue no piloto automático.

Community não. Seus personagens são bons para os diálogos que possuem, mas são particularmente ótimos por causa do seu elenco e das consequência da atuação empenhada de cada um de seus membros. Eles não estão trabalhando como atores que precisam pagar boletos. Este não é um clima leve como The Big Bang Theory. Eles estão construindo comédia aqui. É pesado, é dramático. Cada rápida expressão inesperada, que oscila entre os extremos Abed e Annie, é uma gota de suor que cai de um projeto ambicioso que explora até quando podemos fazer humor sem se preocupar em ofender alguém, mas em entender por que existe a ofensa quando o mundo pode ser um lugar tão bom a ponto de existir comédias como Community.

link cinema series