Confiar

2011-09-27

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Dirigido e escrito pelos estreante no cinema David Schwimmer e Andy Bellin (esta co-roteirizada por Robert Festinger, do excelente Entre Quatro Paredes), este drama de tons realistas e de caráter emergencial conta a história de Annie, uma jovem colegial que acaba de completar 14 anos e que pertence a uma família tranquila e estruturada. Como todas as jovens de sua idade, costuma passar o tempo alheia à vida em sua volta, se comunicando com amigos virtuais através do celular e de seu computador (presente de aniversário de seu pai, um detalhe sutil, mas trágico).

Um desses amigos, Charlie, se torna seu confidente, e a evolução do diálogo entre eles aumenta tanto a confiança que Annie deposita em seu amigo quanto a intimidade do casal virtual. Isso faz com que Annie nutra sentimentos cada vez mais fortes pelo rapaz, que consegue apenas com a força das mensagens eletrônicas convencê-la a se encontrarem e ao mesmo tempo revelar que não é tão jovem quanto fez Annie acreditar que fosse. Vítima de um molestador de menores, o caminho trágico de Annie penetra em nossa consciência muito mais forte se a situação narrada pelo roteiro não fosse tão comum na vida de milhões de jovens o dia todo. Aliás, a forma com que os detalhes nos são apresentados carecem de uma identidade maior (frases, lugares e situações) justamente para reforçar a triste realidade: Annie, como muitas outra que caem no charme de aliciadores, não é em nada especial ou diferente de qualquer outra garota.

Esse impacto inicial serve de fio condutor para o resto da história, onde vemos uma família completamente saudável (e não há nada antes que sugira o contrário) transformar completamente sua dinâmica. Aliás, ao contrário do que normalmente ocorre, embora as investigações para encontrar o molestador seja parte integrante e sempre presente na história, é a temática familiar que é posta em foco todo o tempo, e a maior virtude do longa seja demonstrar como uma família completamente harmoniosa consegue se desestruturar em torno da tragédia ocorrida.

Para denotar mais fortemente essa curva, Clive Owen (genial e sutil em Filhos da Esperança) mais uma vez impressiona em sua caracterização de uma pai que, embora se mostrasse antes espirituoso e cuidadoso com os filhos, se torna ao mesmo tempo obcecado e despedaçado por dentro, e sua desorientação consegue ser sentida tanto pela mudança do seu semblante pelo uso funcional do filho mais velho da família, que retorna nas férias e encontra um pai extremamente envelhecido (ponto também para a maquiagem competente), mesmo que tivesse se passado apenas alguns meses.

E se o elenco ajuda a pontuar as mudanças familiares, a fotografia se estabelece com pouquíssimas luzes e cores, configurando um mundo sombrio que me lembrou muito Deixe-me Entrar, e estabelece de forma inconsciente o andamento da história. Da mesma forma, a trilha contemplativa, com toques isolados (e pausas adequadas entre cenas) traz em nós mesmos a sensação triste da impotência ante o fato, impotência essa materializada em uma mãe que agora chora copiosamente em vários momentos e um pai que tenta desesperadamente fazer algo, ainda que vislumbre, no pouco de raciocínio que lhe resta, a própria futilidade de seus atos. É icônica, aliás, a significativa movimentação da câmera, que oscila bruscamente ao enfocar o pai (desespero), mas desliza quase sem ânimo ao focalizar a filha (inconsolável).

Note como, por outro lado, o comportamento de Annie, a principal envolvida, é linear e previsível. Não à toa: isso é mais uma vez o filme nos escancarando a incapacidade de uma jovem nessa idade possuir a vivência necessária não só para entender as reais intenções do seu molestador, mas o que ocorre com ela mesma após essa experiência, o que nos lembra que o mais horripilante na interpretação do seu estuprador é a facilidade com que é possível convencer sua vítima contra todos os conselhos e avisos de uma formação adequada, o que reflete não só a impotência dos pais (por melhor educação que eles tenham dado) em proteger seus filhos dos seres inescrupulosos que habitam não só a internet, como o mundo real.

Porém, ao mesmo tempo, o filme nos deixa uma pequena-grande reflexão sobre o que seria essa confiança, ensinada pelos pais por sua essência na relação familiar, mas inútil se aplicada sem discernimento na vida real. E como pedir para seres humanos em sua fase de descobertas e medição de valores para já possuírem em seu kit de sobrevivência a capacidade de dividir as pessoas em confiáveis e não-confiáveis? Mais do que acomodar os espectadores, a retórica de Confiar acaba por deixá-los mais inquietos do que antes.

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