Conto de Outono

2020-05-19

É época da colheita de uvas para fazer vinho e este filme de Éric Rohmer fala sobre personagens mais maduros, que já envelheceram o suficiente para saberem exatamente o que querem e terem um gosto mais complexo na boca.

Com os filhos já criados e casando, para muitos que já perderam o parceiro pode ser uma boa ter uma nova companhia que traga significado à vida, e não apenas prazeres frívolos. Há um professor de filosofia que só está interessado em ex-alunas jovens, e o filme nos mostra o quanto essa atitude é ao mesmo tempo coerente e patética. Também nos mostra como as mais jovens têm certeza que foram elas que iniciaram o flerte com os mais velhos, nessas peças que a vida prega aos mais jovens, que só porque se sentem no controle assumem que o que a vida lhe trouxe é exatamente o que queriam.

Esta comédia brinca com diferentes cenários de relacionamento, e consegue nos entreter em todos eles. Sua protagonista merece ser feliz, pois ela é tão humana e sincera. Diferente dessas heroínas fantasiosas de Hollywood ela não está com pressa e não irá cair nos braços de um possível amor “custe o que custar”. Antes disso sua amizade com a melhor amiga é mais importante. A sutileza com que percebemos isso é o charme dessa rede de tensões.

Em uma época pré-Tinder, antes das facilidades das relações líquidas profetizadas por Zygmunt Bauman, onde o que é minimamente desagradável é descartado, seja uma pessoa ou um objeto, esse filme explora com muito charme a busca do amor pelos mais maduros, e os revela como garrafas de vinho que se tornaram melhor com o tempo. Os mais jovens possuem a energia, a beleza e as ideias loucas que passam por uma mente aberta, mas os mais velhos compensam isso tudo com a voz da experiência de quem não está em busca de aventuras, pois já as viveu o suficiente.

Mais uma vez o diretor da quadrilogia dos contos das estações do ano, além de outras interessantíssimas coleções, nos coloca tão à vontade que é natural que queiramos passar alguns dias deliciosos de férias no campo na companhia dessas pessoas. A história é o que menos importa, mas mesmo ela garante uma certa inteligência emocional que nos cativa. Sobretudo os mais velhos como eu.

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