Conversations With Pauline Kael

Wanderley Caloni, 2020-08-10

Este livro é uma pequena pérola para quem ainda não conhece Kael, a crítica mais versátil, corajosa e indigesta da história do cinema. Suas opiniões são fortes e você provavelmente vai discordar da maioria. Mas seu texto é delicioso.

Essa coletânea editada por Will Brantley envolve vários momentos de sua carreira e a descreve a partir de vários pontos de vista, já que cada entrevistador a enxerga de certa maneira. Este compilado acaba se tornando, então, no conjunto, um "Cidadão Kael", fazendo um trocadilho com a obra mais conhecida que Kael já esmiuçou, o filme Cidadão Kane. Nunca saberemos quem de fato foi o ser humano por trás da crítica, e após ler o livro terminamos sabendo ainda menos.

Contrária a tudo e a todos, sua visão política se resume a estar do lado dos menos representados (no cinema americano os conservadores, sem sombra de dúvida), mas não é fácil resumir qualquer traço da escritora em uma frase. Sua bússola moral é o cinema, e se movimentos sociais acabam produzindo trabalhos ruins, ela se posiciona totalmente contra. Se Thelma e Louise é um filme com uma história sem lógica, ainda que feminista, então Ridley Scott será posto à prova por Pauline. Imagino o que ela acharia então de Capitã Marvel, se fosse obrigada a escrever sobre os filmes da Marvel.

Ao mesmo tempo ela é contra Hollywood como sendo a mega indústria que se tornou após os anos setenta. Seu artigo Why The Movies Are So Bad explica o processo pós-Star Wars e a retirada do risco financeiro do negócio de filmes, já vendidos antecipadamente para a TV. É um prazer acompanhar o raciocínio de uma pessoa tão sagaz e uma frustração nunca conseguir compreendê-la por inteiro. Ela se torna mais complexa hoje do que os filmes que são lançados, e a solução é rever os filmes dos quais ela fala em seus livros, ou em artigos arquivados do The New Yorker, lugar onde trabalhou por três décadas.

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