Corpo Fechado

Wanderley Caloni, 2019-07-24.

O que segura Corpo Fechado do começo ao fim é o seu tema, que se resume em uma pergunta, a mais instigante das perguntas: seriam os heróis dos gibis exageros do mundo real?

Essa não é uma pergunta tão ingênua a ponto de soar fantástica, pois basta observar os mitos antigos e os livros sagrados e seus inúmeros milagres relatados para perceber que o mundo já está cheio de imaginação e metáforas nas artes e cultura. Gigantes podem ser pessoas que nasceram com estatura muito acima do normal e monstros pessoas muito feias/repugnantes. Por que não super-heróis não seriam versões exageradas e idealizadas de seres humanos com algumas habilidades que soam sobrenatural a qualquer outro ser humano medíocre?

M. Night Shyamalan é o típico diretor/roteirista/produtor que adora discorrer sobre esse tipo de questão. Em O Sexto Sentido ele explora o sobrenatural além-vida, e aqui, em seu segundo filme de sucesso (descartar seus dois primeiros, Praying with Anger e Olhos Abertos), Shyamalan adentra no universo alternativo dos gibis.

Digo alternativo porque desde que me conheço como gente meus amigos fãs de HQs sempre citaram a dualidade eterna de Marvel e DC. Não havia muito espaço para fugir do padrão comercial de criar meia-dúzia de heróis e vilões e comercializar infinitas histórias com esses mesmos personagens. Aqui há uma espécie de fenda no espaço-tempo onde o personagem de Samuel L. Jackson, Elijah Price, vira um colecionador e especialista em verdadeiras obras de arte, quase como a versão HQ do que chamamos de "cinema alternativo" ou "cinema de arte".

Esse interesse de Elijah surge desde criança, incentivado pela mãe a sair pelo menos para o parque em busca de um novo quadrinho. Seu nascimento é a primeira coisa que vemos no filme, e ele já nasce com vários ossos quebrados. Ele é o Sr. Vidro, como era chamado pelas crianças, possuindo uma doença que torna sua estrutura óssea tão fraca que qualquer queda é quase mortal. Osteogenesis imperfecta é o nome da doença e ela é real.

Corta para Bruce Willis e seu David Dunn, um homem melancólico que abandonou a promissora carreira de futebol após um acidente e que segue um processo de separação de sua mulher sob os olhos de seu filho, o pequeno e insuportável Joseph Dunn, interpretado por Spencer Treat Clark com uma face de criança exageradamente incômoda. Spencer não está atuando neste filme, apenas exibindo seus olhos magnéticos, sua face branquíssima e lágrimas de mentira escorrendo em momentos-chave.

Voltando para Willis/Dunn. Ele sofre mais um acidente, este de trem, que causa a morte de todos os passageiros a bordo. Todos menos ele, que sai sem um arranhão. Ele chama a atenção do agora Mr. Price, um respeitado colecionador de quadrinhos e que coleciona e acompanha acidentes em busca de seu suposto oposto: alguém como David Dunn.

O desenrolar dessa história é irregular, possui cortes que não se encaixam como deveriam, mas a maestria com que Shyamalan captura algumas cenas meio que compensa essa falta de jeito na narrativa. O importante neste filme é manter sempre constante nossas dúvidas a respeito do que pode ser real e o que pode ser mero exagero da nossa imaginação, como a intuição de David que faz com que ele descubra pessoas suspeitas nas filas com dezenas de pessoas para entrar no estádio onde trabalha de segurança. Intuição ou super-poder? O filme nunca nos entregará a resposta. Pelo menos não até o final do filme.

E é isso o que o torna tão magnético e tão intenso. Há uma cena em que David com a ajuda do seu filho vai colocando cada vez mais pesos para ver até quanto aguenta levantar. Não direi até onde vai essa história, mas note que é esse tipo de cena que vemos por todo o filme: pode soar arrastada, mas nós queremos a todo custo ver o que acontece no final.

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