Corpo Fechado

2019-07-24 · 4 · 644

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

O que segura Corpo Fechado do começo ao fim é o seu tema, que se resume em uma pergunta, a mais instigante das perguntas: seriam os heróis dos gibis exageros do mundo real?

Essa não é uma pergunta tão ingênua a ponto de soar fantástica, pois basta observar os mitos antigos e os livros sagrados e seus inúmeros milagres relatados para perceber que o mundo já está cheio de imaginação e metáforas nas artes e cultura. Gigantes podem ser pessoas que nasceram com estatura muito acima do normal e monstros pessoas muito feias/repugnantes. Por que não super-heróis não seriam versões exageradas e idealizadas de seres humanos com algumas habilidades que soam sobrenatural a qualquer outro ser humano medíocre?

M. Night Shyamalan é o típico diretor/roteirista/produtor que adora discorrer sobre esse tipo de questão. Em O Sexto Sentido ele explora o sobrenatural além-vida, e aqui, em seu segundo filme de sucesso (descartar seus dois primeiros, Praying with Anger e Olhos Abertos), Shyamalan adentra no universo alternativo dos gibis.

Digo alternativo porque desde que me conheço como gente meus amigos fãs de HQs sempre citaram a dualidade eterna de Marvel e DC. Não havia muito espaço para fugir do padrão comercial de criar meia-dúzia de heróis e vilões e comercializar infinitas histórias com esses mesmos personagens. Aqui há uma espécie de fenda no espaço-tempo onde o personagem de Samuel L. Jackson, Elijah Price, vira um colecionador e especialista em verdadeiras obras de arte, quase como a versão HQ do que chamamos de “cinema alternativo” ou “cinema de arte”.

Esse interesse de Elijah surge desde criança, incentivado pela mãe a sair pelo menos para o parque em busca de um novo quadrinho. Seu nascimento é a primeira coisa que vemos no filme, e ele já nasce com vários ossos quebrados. Ele é o Sr. Vidro, como era chamado pelas crianças, possuindo uma doença que torna sua estrutura óssea tão fraca que qualquer queda é quase mortal. Osteogenesis imperfecta é o nome da doença e ela é real.

Corta para Bruce Willis e seu David Dunn, um homem melancólico que abandonou a promissora carreira de futebol após um acidente e que segue um processo de separação de sua mulher sob os olhos de seu filho, o pequeno e insuportável Joseph Dunn, interpretado por Spencer Treat Clark com uma face de criança exageradamente incômoda. Spencer não está atuando neste filme, apenas exibindo seus olhos magnéticos, sua face branquíssima e lágrimas de mentira escorrendo em momentos-chave.

Voltando para Willis/Dunn. Ele sofre mais um acidente, este de trem, que causa a morte de todos os passageiros a bordo. Todos menos ele, que sai sem um arranhão. Ele chama a atenção do agora Mr. Price, um respeitado colecionador de quadrinhos e que coleciona e acompanha acidentes em busca de seu suposto oposto: alguém como David Dunn.

O desenrolar dessa história é irregular, possui cortes que não se encaixam como deveriam, mas a maestria com que Shyamalan captura algumas cenas meio que compensa essa falta de jeito na narrativa. O importante neste filme é manter sempre constante nossas dúvidas a respeito do que pode ser real e o que pode ser mero exagero da nossa imaginação, como a intuição de David que faz com que ele descubra pessoas suspeitas nas filas com dezenas de pessoas para entrar no estádio onde trabalha de segurança. Intuição ou super-poder? O filme nunca nos entregará a resposta. Pelo menos não até o final do filme.

E é isso o que o torna tão magnético e tão intenso. Há uma cena em que David com a ajuda do seu filho vai colocando cada vez mais pesos para ver até quanto aguenta levantar. Não direi até onde vai essa história, mas note que é esse tipo de cena que vemos por todo o filme: pode soar arrastada, mas nós queremos a todo custo ver o que acontece no final.

Unbreakable (United States, 2000). Dirigido por M. Night Shyamalan. Escrito por M. Night Shyamalan. Com Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright, Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard, Eamonn Walker. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·