Cria Corvos

2019-08-19 · 4 · 741

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Engraçado como a memória funciona. Organizada de maneira não-linear em nosso cérebro, perdendo algumas ligações aqui e ali, ganhando outras sem querer… no final das contas esse conjunto de quase-conhecimento sobre nós mesmos, sobre quem amamos ou a sociedade onde vivemos é tudo o que podemos chamar de “eu”. A nossa identidade inteira, baseada em frágeis conexões elétricas bem atrás de nossos olhos.

Cria Corvos é um filme que brinca o tempo todo com a memória, com a vida e com a morte, como deveria ser todo filme que se passa durante um regime militar (no caso o espanhol). Acompanhamos Ana em suas incursões pela casa burguesa, de militar, onde mora. Conforme Ana anda pela casa surgem suas memórias de sua falecida mãe, misturadas com o presente acontecendo aqui e agora, com sua repugnante tia, que acabou cuidando de suas sobrinhas neste breve período.

Seguindo a tradição de Goddard, logo enxergamos a crítica à vida burguesa e todos seus elementos risíveis: a empregada e as regras de etiqueta, o não-fazer nada do resto da casa e os eventuais casos extra-conjugais para quebrar o tédio. Seria esse marasmo que faz a pequena Ana se lembrar de sua mãe? Tenho dúvidas se a vida com ela era minimamente diferente ou se ela apenas está idealizando algo que nunca teve. Essa memória e seus truques…

Esta também é uma história que mexe com a morte, e um possível assassinato, mas isso não importa muito. A primeira coisa que vemos é Ana testemunhar a amante do seu pai saindo do quarto onde ele agora repousa morto, sufocado. Ana adentra o quarto para fazer carinho no corpo do pai. O único momento que ela faz carinho no seu hamster de estimação é também quando ele repousa morto. Carinho é recurso escasso naquela família, deve ser usado com moderação.

Há outras irmãs, uma grande e uma pequena. Mas isso também pouco importa, são coadjuvantes de luxo que não podem sequer tocar e dançar uma música quando sua tia está por perto. A diversão é proibida ou mantida sob um controle tão mesquinho que perde a graça. A mesma coisa observamos durante as refeições e os momentos dos passeio no jardim, que mais se assemelha a um presídio.

Seguido da morte, segue-se também o luto. Mas até o luto não tem graça nesta vidinha. Lamentar pela morte de um pai ausente e mulherengo, que apenas alimentou a dor da vida de sua mãe ao “não permitir” que ela seguisse sua carreira de pianista não é exatamente um luto. A própria Ana, que vemos adulta, analisando sua infância como um testemunho, não parece ter certeza de suas memórias.

O diretor Carlos Saura (do excelente Argentina) está bem à vontade em filmar presente e flashback, tudo junto. Ele sequer divide os momentos que Ana vê sua mãe e logo depois encontra sua tia. Isso porque essa memórias, presente e passado, estão no mesmo lugar, nesta casa. O espectador entende de imediato. Não precisamos de mais explicações sobre espíritos e fantasmas, pois o tom da narrativa, sóbria, descarta possibilidades fantásticas.

Já a direção de arte, em plenos anos setenta, é ironicamente um frescor visual para os tempos atuais. Praticamente todos os cômodos da casa por onde Ana passa possuem traços riquíssimos de design. A geladeira velha, a mobília com madeira de lei, os brinquedos e quadros de personagens infantis. Tudo soa como um verdadeiro documentário explorado como uma viagem sensorial por esta fraca linha que une os momentos de nossa vida. São apenas férias escolares seguido de um luto, mas o filme transforma esse hiato em verdadeira poesia de uma vida e de uma sociedade.

Sobre o que se trata Cria Corvos, afinal? Esta é uma pergunta fácil e difícil. É fácil dizer que é um filme de momentos na vida de uma criança que revelam a síntese dessa vida de rico onde falta vida (pois “vida é sofrimento”, como já diria Jordan Peterson), ao mesmo tempo analisando de maneira depressiva o papel da mulher, vista em três gerações e diferentes papéis. Já mais difícil é dizer que é um filme sobre as lembranças da morte. O cineasta deseja morrer, ele vive em uma ditadura, e por isso se torna uma constante para essas pessoas, assim como é o tema principal nas memórias de Ana. Mas sabemos como a memória pode ser um ambiente aberto a interpretações. Exatamente como acontece após uma ditadura. Enfim, só um pensamento que veio à memória.

Cría Cuervos (Spain, 1976). Dirigido por Carlos Saura. Escrito por Carlos Saura. Com Ana Torrent, Conchita Pérez, Mayte Sanchez, Geraldine Chaplin, Mónica Randall, Florinda Chico. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·