Dersu Uzala

Wanderley Caloni, 2020-04-07.

Você vai ouvir esse nome muitas vezes no filme de 75 de Kurosawa, falado em russo, e com cenários e situações realistas que compõem esta amizade entre um oficial russo e um caçador do povo Nanai, um dos habitantes da extrema Sibéria.

Os Nanai possuem uma conexão muito forte com a natureza, e boa parte do filme é para entendermos as diferenças de visão de mundo entre Dersu e os militares que ajuda a guiar pelas inóspitas florestas da Sibéria. Essa história se passa entre 1902 e 1907, é biográfica, antes da Revolução Russa, e portanto no império czarista.

Mas não vemos muito sobre a sociedade russa, pois o foco é a natureza. Os poucos momentos na cidade é para demonstrar o choque e a desconexão entre homem e natureza. Antes tínhamos a floresta ao dispor. Hoje vivemos em caixas.

O ator que faz Dersu é autêntico de tantas maneiras que ele não precisa criar um personagem, pois de fato ele é Dersu Uzala apenas aparecendo na tela.

Em alguns momentos a trilha sonora lembra clássicos russos e nos remete à grandiosidade das experiências na Rússia, evocando a cultura de maneira sutil. O diretor é muito fã da cultura russa e este filme sela sua paixão entre oriente e ocidente.

Efeitos visuais simples, mas eficientes, compõem os quadros milimetricamente escolhidos por Kurosawa para pintar seus movimentos em cena. Vemos o batalhão ao fundo e esses dois amigos isolados ao canto. Dersu é um lobo solitário, mas viu no Capitão o respeito que merece como ser humano. Ou gente, como ele chama tanto as forças da natureza como fogo e vento ou os animais.

Crítica ao acúmulo de capital, à ganância e ao uso do dinheiro são fáceis demais do ponto de vista de quem vive na floresta. Mas o filme os faz do mesmo jeito. Ele busca entender em que momento o homem perdeu sua alma. O filme não responde, mas deixa claro a diferença entre o antes e o depois. Mas essa história já faz muito tempo que passou.

movies discuss