Donnie Darko

2019-05-10 · 4 · 642

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Quase 20 anos depois, Donnie Darko é um pequeno milagre dos filmes lado B de baixo orçamento. Com um elenco misteriosamente relevante – vários atores se tornaram revelações – e a profunda ideia de chacoalhar a sociedade americana com sua crítica às soluções imediatistas baseadas em pílulas, terapia e auto-ajuda, sua viagem no tempo é a cereja no bolo de uma história que não permite que coloquemos ou tiremos nada, mas que ao mesmo tempo permita tantas interpretações diferentes.

Esta é uma versão dark e distorcida que mistura elementos de De Volta Para o Futuro com Efeito Borboleta, além de ser uma clara inspiração a Beleza Americana, que ganhou o Oscar por ser mais “adulto”. Porém, o filme de Kevin Spacey possui em seu pano de fundo a mesma sociedade e a mesma crítica (e, ponto seja dado, foi precursor a Darko). Por ser baixo orçamento, este é um trabalho bem mais solto, e nos leva a de fato questionar o que é está realidade que vivemos, em vez de simplesmente condená-la.

Analise a questão comigo, e veja o que é melhor: um jovem morrer tragicamente em um acidente inexplicável ou seus 28 dias tortuosos e incômodos que se seguem se ele não tivesse morrido? Donnie Darko só nos permite saber dessa pergunta em sua revisita, mas da primeira vez o impacto é sentido de forma inconsciente pela sua música-tema, Mad World (mundo insano), tocada nos momentos finais do filme. Faz refletir ao mesmo tempo que consola. Agora é a hora que você vai no Spotify e dá play nessa música.

O que torna este um trabalho exemplar de Cinema é seu protagonista-título (Jake Gyllenhaal), pelo que ele representa na história. Ele é a peça do quebra-cabeça que não deveria existir, mas que existe mesmo assim, e recebe recados de um agente do futuro que usa uma máscara bizarra de coelho. Esses recados se misturam com ordens de inundar a escola ou queimar uma casa. Ele não sabe por que isso é importante, mas não tem escolha.

Qual a diferença disso para os jovens suicidas que entram armados nas escolas para cometer assassinatos em massa? Não seria Darko uma versão mais palatável dessa vontade ao mesmo tempo insuportável e incontrolável de alguns jovens de por um fim em tudo isso? O filósofo/psicólogo Jordan Peterson descreve em seu livro 12 Rules uma base racional pelo qual eles têm seus motivos para cometer essas atrocidades, como um sentimento auto-destrutivo, mas note que apenas em uma sociedade como a americana se cria ambiente tão propício para um comportamento como esse.

Dada a complexidade alcançada por um filme dirigido de maneira tão despretensiosa e mais focado em seu lado sci-fi, é provável que nem o diretor/roteirista Richard Kelly tenha pensado seriamente no assunto, e como ele nunca mais se destacou no cinema novamente é até plausível (seu último trabalho, o péssimo A Caixa, já tem dez anos). Mas como eu falei no início, se trata de um pequeno milagre ele ter capturado a essência desse tema em detalhes de uma família e comunidade disfuncional que aos poucos se tornarão relevantes para o acontecimento principal.

Porém, o que torna Donnie Darko um trabalho complexo é o seu lado sci-fi. Constituído com um equilíbrio insano mantido durante todo o filme entre pelo menos duas versões da história, ao final podemos concluir com peso igual de probabilidade que esta é 1) a história de uma viagem no tempo que cria um loop temporal incompreensível ou que esta é 2) a narrativa de um garoto esquizofrênico com sérios problemas de auto-controle, e a única cena que nos diz em qual devemos acreditar é a que segue logo depois da música Mad World.

Qualquer adolescente maníaco o suficiente para criar teorias sobre os Smurfs aplaudiria de pé Donnie Darko. O filme ou a pessoa responsável pelos únicos momentos sanos daquela história.

Donnie Darko (United States, 2001). Dirigido por Richard Kelly. Escrito por Richard Kelly. Com Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase, Mary McDonnell, James Duval. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·