Dor e Glória

2019-09-04 · 4 · 841

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Alguns cinemas de autor nunca envelhecem. Ou envelhecem e se transformam. Quando conheci o cineasta Pedro Almodóvar ele estava na transição que o separaria entre os seus filmes de início, como Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980), e Labirinto de Paixões (82), que misturavam o escrachado com o drama novelesco, para algo mais rebuscado como Má Educação (2004), em minha opinião o ápice de metalinguística dos trabalhos almodovarianos, aquele que trabalha com as memórias do autor enquanto sabe que o faz dentro de um microcosmos interno que se revela mais universal do que se imaginaria a princípio.

Mais tarde frente conheci seus trabalhos que mantinham a maturidade de Má Educação com o frescor e a leveza de sua juventude. Carne Trêmula (97) é um exemplo, assim como o divertidíssimo Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (88), e é importante lembrar que esta não é uma ordem cronológica, pois logo em seguida a Má Educação surge o adorável Volver (2006).

Mas também conheci o material pesado do cineasta espanhol, aquele que é mais biográfico e que trabalha com temas delicados com uma simplicidade que apenas Almodóvar conseguiria: Fale Com Ela (2002), Tudo Sobre Minha Mãe (99), A Pele Que Habito (2011).

Dentro desse microcosmos que habito ao assistir seus filmes ainda participei de seu declínio. Uma queda mais brusca inicialmente, com o péssimo Abraços Partidos (2009), e uma queda medíocre, ultrapassada, nesta comédia completamente deslocada: Os Amantes Passageiros (2013). E para fechar a tríade da tortura de quem aguarda pela sua próxima obra-prima, uma dramédia que tenta resgatar os bons tempos e não consegue: Julieta (2016).

Dessa forma, com esse trajeto em mente, três anos depois, se torna uma experiência mista constatar novamente que Almodóvar tenta fazer algo com o seu passado, e seja lá o que for, em Dor e Glória. Este seu último filme até o momento é uma repaginada em seus projetos mais desastrosos, mas ao mesmo tempo um retorno com pouco tempo de reflexão, com pouco preparo estético e narrativo. Longe dos ápices da carreira do diretor, quando aparentemente livre de amarras e com o controle absoluto de sua câmera, foi não apenas um diretor espanhol autoral, mas disposto a fazer Cinema para o mundo inteiro degustar. Aqui ainda temos um sentimento de trabalho intimista, mas curiosamente, também muito tímido.

Realizando uma história sobre um cineasta abatido por doenças físicas e psicológicas, Almodóvar tenta quase pedir desculpas pela sua falta de energia, mas ao mesmo tempo o faz trazendo de volta algumas boas sequências, que podemos admirar com carinho, com reconhecimento e um bocado de saudosismo.

O cineasta, Salvador Mallo, é interpretado por Antonio Banderas, em uma versão alternativa do que o próprio Banderas havia feito em A Lei do Desejo (1987), um de seus primeiros filmes. Banderas não é um ator exatamente versátil, e fica limitado pelo roteiro justamente porque Almodóvar prefere contar a história do seu jeito: através de gráficos ilustrativos e narração em off, ele coloca voz e imagem a serviço de “Salva”, para que ele explique porque a ideia de filmar um novo filme é insuportável para ele. O ouvimos e entendemos a problemática de sua saúde, mas não a sentimos na interpretação de Banderas, que se limita a se mover devagar e cuidadoso saindo e entrando em um táxi, ao mesmo tempo que sua cara de dor não é nada sutil para quem possui, além de uma incessante dor nas costas e em outras partes do corpo, um espírito quebrado pela depressão.

Isso por si só seria suficiente para diminuir um pouco nossas expectativas a respeito desse novo filme, mas o mais frustrante é mesmo o uso de flashbacks e cortes inspirados do diretor em um ritmo enfadonho. As transições são boas, a história também, mas seu ritmo vai devagar quase parando. Boa parte desse sentimento é inspirado pela nossa completa apatia pela figura de um cineasta recluso e seus traumas passados. Ele não tem a vida que os personagens antigos de Almodóvar possuíam.

Mas pior do que isso é o aspecto teatral de um conto convertido para o formato de longa-metragem. Apesar de ser cinema em alguns aspectos, como enquadramento e cortes, o filme se prende em um formato teatral que fica óbvio quando ele finalmente engrena, em seu terceiro ato, através de uma peça de teatro, recurso usado em Tudo Sobre Minha Mãe não para salvá-lo do tédio, mas para expandir os conceitos apresentados no filme até então. Aqui, pela falta de empatia, a peça de teatro funciona como um vazio existencial que busca desesperadamente por carinho e compreensão.

Mas são outros tempos. Salvador não irá para a cama com seu antigo namorado, nem se arriscará a cair mais ainda no vício das drogas que se meteu. Este é um filme careta, e está sendo apresentado como de Almodóvar. E isso, senhoras e senhores, se chama envelhecer. Visto de uma maneira piegas, embora conduzido por alguém que merece conteúdo melhor para trabalhar. Infelizmente, o cineasta continua seu período sabático, ainda que filmando. Aguardemos mais um pouco.

Pain and Glory (Spain, France, 2019). Dirigido por Pedro Almodóvar. Escrito por Pedro Almodóvar. Com Antonio Banderas, Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia, Nora Navas, Julieta Serrano, César Vicente. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·