Dororo

Wanderley Caloni, 2021-02-15.

Originalmente um mangá da década de 60, este remake animado mantém alguns aspectos brutais deste drama em contexto histórico com muita instabilidade política, violência e extrema pobreza. Estes elementos são piorados ou representados pelas figuras de monstros e demônios habitando o Japão durante o declínio de seu sistema feudal, guerra civil e, portanto, tempos de incerteza.

Os traços são absurdamente estilizados na empolgante introdução, embalada por uma música moderna. Esta arte é vista apenas em detalhes eventuais nos traços principais, mais acessível ao público. O uso de cores como representação é um dos pontos fortes, como o vermelho sangue para coisas ruins.

A narração conta uma história episódica (o monstro do dia) que evolui aos poucos para o reencontro entre os pais de uma criança defeituosa abandonada após o parto que vira um ronin sem destino que enxerga a alma dos seres viventes e combate monstros por onde passa. A metáfora de um Japão cheio de defeitos em busca de uma versão melhorada não poderia ser mais óbvia, e ao mesmo tempo o pano de fundo de novela mexicana.

A ação do anime não empolga, assim como sua história. Se trata de um épico, mais solene. Lembra as lendas japonesa pelas quais obras mais acessíveis ao Ocidente, como O Tigre e o Dragão, foram criadas, mas ao mesmo tempo a presença da garota título nos remete a um tom mais infanto-juvenil. A mescla de gêneros e público-alvo não é ruim. Instiga pela novidade, embora não seja algo completamente novo. Mas é fresco o suficiente para evocar admiração, comercial o suficiente para pessoas normais acompanharem, jovens ou velhas.

Poderia conter um núcleo mais coeso e enxuto. O apelo comercial estende a história para 24 episódios no momento. Há alguns bons momentos, no entanto. O problema é que eles não são memoráveis justamente por conta de todo o resto gerando ruído. A mensagem moral mais perene da série é se vale a pena sacrificar um ser humano para que todos vivam melhor, um ataque sutil ao socialismo que vejo com bons olhos frente ao nosso declínio da moral ocidental.

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