A essência da coletividade (Dunkirk)

Dunkirk, filme sobre um evento histórico do diretor Christopher Nolan, simplifica a narrativa humana buscando a essência da coletividade: o que causa um grupo ser maior que a soma dos seus indivíduos? Mas simples não quer dizer simplista, e Nolan sabe muito bem disso. Ele começa apresentando um soldado francês fugindo do exército alemão em busca de resgate. Seus colegas são mortos ou feridos nas últimas jardas onde uma operação gigantesca de retirada de tropas está sendo conduzida pelos britânicos. Não demora muito para que este indivíduo se torne apenas um no meio de milhares de anônimos em busca da sobrevivência.

A precisão documental de Nolan parte então do indivíduo para o coletivo. E há vários tipos de indivíduos nessa história para ilustrar: soldados (franceses e ingleses), pilotos, capitães, almirantes, desertores, civis. Cada um precisa ganhar sua própria luta interna entre o egoísmo irracional de salvar a própria pele e o altruísmo racional, que entende que, por pior que seja para o "eu", a sobrevivência do "nós" pode depender de algumas de suas ações.

O problema que o longa tenta compreender é que esse sentimento do sacrifício pessoal pelo grupo, pontualmente patriótico e muito mais coletivo, é instável. Parte do princípio que somos fundamentalmente animais em busca de seu lugar ao sol, custe o que custar, e aos poucos tenta delinear uma espécie de mão invisível que se ergue contra o inimigo em comum. Essa mão só passa a existir quando todos trabalham em uníssono, tal como uma orquestra incidental sem regente e com muita habilidade, e como Dunkirk parece concluir, este é o verdadeiro milagre a ser contemplado em condições extremas como uma guerra.

O brilhantismo de Nolan, que também assina o roteiro, é não se focar muito no roteiro em si, mas na essência que ele tenta extrair. E a essência no cinema é obtida por pura direção, coisa que Nolan domina com maestria junto de sua equipe técnica. Dessa forma, direção de arte, som, trilha sonora, edição, atuações e fotografia trabalham mais ou menos como aquelas pessoas perdidas na praia. Elas dão o seu melhor individual pela excelência do resultado coletivo: uma obra de arte audiovisual que ultrapassa seu perfeccionismo técnico para atingir a máxima expressão de realismo em um documentário com cara de ficção.

Coitado dos que forem ao cinema aguardar pelos intrincados jogos narrativos do diretor da trilogia da justiça do homem-morcego, da metáfora em camadas de sonhos de A Origem ou das trágicas últimas consequências da rivalidade sem limites de O Grande Truque. Nada disso irão encontrar em Dunkirk. Alguns podem dizer que a história do filme nem é tão boa. E não é, mesmo. Tentando ignorar o relógio e nos remetendo excessivamente a idas e voltas em torno de um pôr-do-sol e luar eternos, o filme carrega uma complexidade que parece ter apenas o objetivo de nos fazer esquecer da ordem dos eventos e tentar nos fazer focar no peso das ações. Isso nos faz lembrar mais ainda que não há movimento orquestrado. O caos impera como nunca, e a diferença entre viver e morrer muitas vezes é apenas a posição aleatória que uma bomba cai em um píer lotado de seres humanos. Esta é a verdadeira natureza humana, e não a sensação de ordem trazida por um roteiro mais mecânico.

No entanto, há uma ordem. Ou pelo menos um tema. Isto apenas não é perceptível de imediato. A construção do filme na mente do espectador depende de sua percepção que a superação das adversidades depende basicamente da racionalidade humana em seu máximo potencial. Os soldados mais atentos se posicionam próximo da saída caso o navio afunde. O soldado francês carrega uma maca na esperança de ser resgatado mesmo não sendo inglês. O almirante abstrai vidas humanas para tentar chegar no melhor resultado a longo prazo (a guerra não é feita de apenas uma batalha). O civil, um inglês em seu próprio barco, já lutou na primeira guerra e sabe pelo som do motor distinguir caças inimigos de aliados. E o piloto aproveita ao máximo seu combustível para proteger seus companheiros.

Todas as atuações em Dunkirk, por mais famosas que sejam, se tornam anônimas pelo bem da narrativa. Dessa forma, ainda que seja acertada a decisão da figura que representa o sobrevivente anônimo ser um ator estreante (Fionn Whitehead), Mark Rylance e Tom Hardy se limitam a suas personas econômicas, sem exageros, e por isso mesmo extremamente realistas.

Rylance, personagem mais velho entre os civis, é a bússola moral da história. Sua experiência de guerra, além de tática, é assim como Churchill humanista de maneira pragmática. Ele entende os ideais de seus compatriotas, e mesmo que não entendesse, tem a marca de um filho perdido para lembrá-lo como a dor de uma guerra é universal. Suas poucas falas e muita ação tornam seu personagem o meu favorito. Ele é a síntese dos ideais de Dunkirk, mesmo que para chegar lá todos os mais jovens tenham que falhar onde Rylance mal se dobra.

No entanto, apenas o personagem de Tom Hardy poderia trazer também energia à empreitada. E isso ele faz com uma entrega não apenas louvável, mas inteligente, habilidosa e carismática. Ele pode ser o personagem favorito dos mais jovens, que irão se sentir salvando o dia e ainda mantendo uma quantidade invejável de testosterona.

Por fim, o soldado francês de Whitehead, Tommy, não é um herói anônimo, mas um fracassado notório. A função dos britânicos também era salvar os franceses das garras do inimigo, mas aparentemente os franceses são incompetentes demais até para serem salvos. O francês de ontem é representado como o francês padrão de hoje, por um homem fraco, covarde, que não honra suas calças e permite que façam o que quiserem com sua terra. E isso não é ruim para a história, mas necessário. É da natureza humana salvar os mais fracos para o bem coletivo. O soldado francês, portanto, é a versão mais realista possível em um relato de guerra do clichê da donzela em perigo.

Todas as ações em Dunkirk são momentos de tirar o fôlego. Isso porque a sua edição de som nos permite acompanhar cada evento com precisão, desde a queda de cartucho de um tiro até os motores falhando de um caça. A trilha sonora de Hanz Zimmer se encaixa como uma luva em um épico de guerra. Zimmer sempre é barulhento e pertinente e aqui ele faz o trabalho de sua vida. Sabemos que é ele pela repetição de temas anteriores (trilogia do Morcego e A Origem), mas aqui o filme praticamente implora por mais Zimmer.

Todo esse hino dramático se potencializa por um filme que exibe uma fotografia hiperrealista de Hoyte Van Hoytema (Ela). É como aquelas fotos coloridas da época (originais ou atualizadas), onde ainda se mantém a aura documental com cores não tão fortes, mas precisas, eternas. A filmagem em 70mm e a decisão de filmagens reais de caças tornou a experiência tão impressionante que fica difícil desassociar o real do imaginado. A arte imita a vida em uníssono com a atmosfera eternizada de Dunkirk.

Este é um filme cheio de ideais. Mas como tudo na melhor sétima arte, esses ideais não são verbalizados, mas sentidos ao vermos a ação acontecendo. E quanto mais perfeita a ação mais forte a mensagem. Tal qual os melhores momentos de Eisenstein, Dunkirk é menos sobre conflito é mais sobre natureza humana. No caso o filme de guerra de 2017.

Wanderley Caloni, escrito para ou com a ajuda de Cinemaqui, 2018-01-08 00:00:00 +0000

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