Elsa e Fred

2010-12-30

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

A noção de felicidade na sociedade atual acaba a tornando inalcançável. Quanto mais busca-se o mundo ideal, mais perde-se a satisfação do real. Sendo assim, é difícil não se emocionar com a praticidade de Elsa, uma mulher em torno dos seus 80 anos bem vividos que só tem um desejo em mente e que o coloca em prática o mais rápido possível: viver mais, não importando os defeitos e os obstáculos que o mundo real lhe apresenta.

Com um jeito apressado e cativante de se expressar, Elsa não é fácil de lidar, como é observado na relação com o filho. Porém, o que emociona na interpretação de China Zorrilla é a forma com que ela lida com seus problemas, se livrando rapidamente deles quando pode, ou se conformando com os que continuam a lhe atrapalhar. Isso não interfere com seu humor. Disposta a tudo para ser e fazer as pessoas felizes (as que merecem, do seu ponto de vista), não há nada que parece lhe tirar esse gostinho de viver. Vaidosa e dissimulada quando lhe convém, é autêntica. Imperfeita, mas real.

Em contrapartida, Alfredo, um recém-viúvo gentil, correto e educado, não tem muitas aspirações na vida a não ser ficar onde está. Lembra de sua ex-esposa pela sua principal virtude, ser organizada, e não seria exagero imaginar que eles viviam cada dia juntos como se fosse o mesmo. Para Alfredo, todas as coisas devem ficar no seu lugar, tudo tem uma hora, não se deve arriscar mais que o suficiente e, principalmente, deve-se tomar muito cuidado com a saúde.

Quando os dois se encontram, o que é mais notável é a rápida transformação de Alfredo. Sempre cauteloso e melancólico no início, a atuação de Manuel Alexandre confere autenticidade nas capacidades de Elsa de renovar o espírito de quem quer que esteja com ela. Note como Alfredo começa a história com movimentos lentos, cabisbaixo e com uma leve amargura no olhar, e quanto, ao conhecer Elsa, volta a se movimentar com mais desenvoltura (e os cortes um pouco mais rápidos ajudam imensamente nesse efeito). Ao reerguer sua cabeça e empregar um tom de voz mais enérgico, especialmente ao conversar com sua filha, Manuel Alexandre nos dá a medida exata do poder de influência de Elsa e sua contagiosa vontade de viver.

Com uma trilha sonora e movimentos de câmera que privilegiam a contemplação, o filme é recheado de diálogos que pareceriam piegas se não saíssem da boca de dois simpáticos velhinhos, mas que exatamente por isso se tornam momentos inesquecíveis. E nada mais apropriado que o filme de Fellini, A Doce Vida, para que fossem resgatados os sentimentos de juventude e a valorização da vida, imperfeita como ela é, eternizada na relação amorosa entre os dois.

Nesse sentido, a cena final do casal, imortalizada com a troca de cores da sensível fotografia, representa muito mais que um momento. O “Obrigada” de Elsa dito a Fred simboliza a gratidão por tornar este momento especial, mesmo que o gato não seja branco, e mesmo que não dure para sempre.

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