Entre Facas e Segredos

Wanderley Caloni, 2020-08-29

Assisti a este filme do cineasta Rian Johnson tendo em mente que ele é o diretor do melhor filme Guerra nas Estrelas até agora, "Star Wars: Os Últimos Jedi". Além, é claro, do ótimo "Looper: Assassinos do Futuro" e de pelo menos dois dos melhores episódios da série dramática "Breaking Bad". Porém, também sabia que esse filme recebeu ótimos elogios pela sua crítica social, então já esperava que a história não prestaria o suficiente. Os dramalhões com minorias oprimidas e caricaturas da elite americana é lugar tão comum neste século que apenas uma sociedade em decadência para chamar isto de crítica e não de uma maneira sarcástica.

A história de detetive gira em torno da morte de um velho ricaço, os abutres herdeiros de sua família e a enfermeira imigrante completamente inocente e bem intencionada. O ricaço fez fortuna com uma editora com livros que ele próprio escrevera, ou seja, uma fortuna confiscada do homem comum a partir de direitos autorais, a forma mais injusta de receber sobre um trabalho que não existe. Essa prática jurídica é defendida por artistas apenas porque os beneficia, geralmente os mesmos artistas que discursam sobre redistribuição de riqueza.

Mas devaneio sobre ironias.

A sequência impecável deste tenso e eficaz longa vem logo no começo. Dura o tempo de alguém lançar uma moeda ao ar e a capturar de volta. É naturalmente tensa porque ao narrar a verdade apenas para nós, espectadores, aumenta nosso medo do que poderá acontecer quando isso for descoberto pelas pessoas do filme, mas se torna insuportavelmente tensa quando ela termina, que é quando percebemos que tudo o que vimos se passou apenas na cabeça de uma personagem e não foi dito a ninguém. É um dos momentos mais memoráveis do cinema naquele ano.

O resto é manipulação de tecido social básico sobre assuntos da moda para a elite intelectual esclarecida rasgar elogios. Estão todos interessados na grana do velho e a pobre moça é o epicentro de uma investigação que a coloca injustamente na posição de suspeita número um. Para piorar, ela vomita toda vez que conta uma mentira, porque você sabe como são esses imigrantes de países latinos: não fazem nada de errado. Seriam canonizados em seus países de origem, mas escolheram sofrer e ser explorados em países mais ricos. Todo sofrimento se torna melhor quando se conta o salário em dólares.

Especialmente se você é uma garotinha bonita como Ana de Armas, mas ela não é apenas um rostinho bonito na multidão de fascínoras milionários. Nós enxergamos através dos olhos da atriz todas as preocupações de sua personagem cada vez que uma nova descoberta se revela aos olhos do investigador particular contratado anonimamente, que sabemos ser importante porque foi premiado com um artigo no The New Yorker, o símbolo máximo da elite intelectual esclarecida, um dos bastiões de como ser um socialista e manter o seu dinheiro no banco. Curiosamente é usado como mau exemplo de mídia no filme, pois tudo o que essa gente da grana lê só pode ser enviesado, alienado, dentro de uma bolha que não é interessante porque não é sobre os pobres, etc. Mas posso ter perdido a fina ironia de Johnson.

O investigador é Daniel Craig, um dos atores-chave em um elenco que consegue fazer muito pouco com personagens que são caricaturas ambíguas. Ele deveria ser cômico, com seu sotaque britânico e observações literárias irrelevantes, mas acaba soando apenas deslocado do universo que habita temporariamente. Seu jeito sisudo, embora pomposo, não afirma com convicção de que o que esta pessoa fala deve ser visto como um floreio de humor ou o humor acidental dos que falam em floreios. É um desafio contemporâneo criar um detetive para o tom deste filme, e Daniel Craig e seu jeito másculo não é a melhor escolha.

De um elenco vasto e apagado o único à vontade em seu papel é Chris Evans, já que ele possui os "fenótipos" misturados de ambiguidade e bom caratismo. É um oportunista, mas bonito a ponto de relevarmos algumas de suas atitudes. Mas este é um jogo em que apenas os mais puros de alma vencem, então já sabemos que apenas os personagens com sotaque latino devem triunfar. Qualquer americano neste filme com uma renda de seis dígitos cumpre apenas a função de gerar ódio no espectador, que sairá da sessão com a sensação de estar vestindo a capa de justiceiro social.

Porém, para nós, meros mortais fora desse joguinho contemporâneo completamente sem graça, este é um filme minimamente interessante, com boas reviravoltas, e que nos mantém tensos boa parte do tempo. Ele é eficiente, então, apesar de seu pano de fundo. É virtude do seu diretor, mas não do seu roteirista. Que ele seja a mesma pessoa é um sinal de perigo para seus futuros trabalhos.

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