Estômago

2020-06-13

Este é um filme no auge da retomada do cinema brasileiro e quando os esquerdistas estavam sem ódio no coração com o lulinha da paz. Por isso a prisão não é horrível, mas podia ser melhor. Alguns insetos na comida e só isso. Este roteiro caminha em dois tempos distintos na história de Raimundo Nonato (João Miguel), um nordestino que vem para São Paulo ou outra grande metrópole do sul mostrar como em um filme há tanta desigualdade e desrespeito pelos serumaninhos. Mas um paradoxo se cria quando vemos o final do filme e descobrimos estar enganados a respeito da índole do protagonista. Infelizmente isso acontece tarde demais e soa falso. No entanto, a diversão fica por conta de diálogos bem trabalhados, com uma preparação de elenco que cria personagens factíveis e genuinamente engraçados. Sanitizados, mas engraçados. O objetivo do filme é ser comercial, e por isso o DVD vem cheio de extras e o play do filme, mesmo normal, nos mostra de maneira irritante um ícone no canto da tela para podermos pressionar um botão do controle remoto e ir para a receita que está sendo feita no filme. Desnecessário. E preguiçoso, já que nos extras a mesma opção existem, sem você precisar assistir ao filme novamente.

João Miguel cria um protagonista que ganha a empatia do público com seu jeito manso ao mesmo tempo que puro, e com isso nos mantém sempre a seu lado. Ele é o elo fraco da rede de poder que move a economia: o dinheiro. Se você não tem é quase um escravo. Tanto que seu primeiro emprego na cidade grande, fazer coxinhas para o dono de um boteco, é pago “apenas” com casa e comida. Mas Nonato, que nasceu de parto difícil (por isso o nome, ele explica) e provavelmente é órfão de mãe que nunca conheceu o pai, uma história como muitas da região de onde veio, cozinha bem, e isso o leva a ser promovido na vida em pouco tempo, indo trabalhar na cozinha de um bacana que se acha um connoisseur de vinho e comida requintada, mas fala com um vocabulário xulo que pessoas da classe média assistindo irão perceber que é para mostrar como ele é boçal, embora ele possa muito bem ter nascido na periferia da cidade grande que o filme tanto despreza.

De qualquer forma, cozinhando bem ou não, Nonato vai preso, no que é a segunda parte da história, que vai avançando em paralelo com a primeira. Os momentos que elas se encontram são tematicamente semelhantes, e com isso o diretor Marcos Jorges quer dizer alguma coisa sobre relação de poder ou como a situação de nossa vida independente de onde estejamos é muito parecida, seja na cadeia ou nas ruas. Seja lá qual for a mensagem, que é vaga demais para prestarmos tanta atenção assim, Marcos possui a habilidade de criar lindas transições no tempo e no espaço pela narrativa. Principalmente no tempo. Algo é cozinhado, foco no fogão, e logo depois passa uma semana, um mês, algum tempo o suficiente para a história avançar. As transições entre a prisão e a vida livre também são feitas assim, e nunca cansam, pois são fluidas. Um exemplo de montagem.

Entre os destaques no elenco o melhor deles sem dúvida é Babu Santana, que faz o chefe de cela Bujiù com tanta naturalidade e convicção que eu assistiria um filme apenas sobre este quase-personagem que parece manter a cela em ordem e em paz. Não há motivos para querermos mal uma pessoa dessas. Diferente de Giovanni, o pedante gordinho da “Cozinha Internacional, Ambiente Familiar”. Interpretado por Carlo Briani, ele atua para outro filme, um mais falso, mais estilo “documentário para TV”. Não convence e chateia os espectadores mais cultos, diferente de Nonato, que diverte qualquer classe social. Há uma mensagem aí embutida.

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