Família Rodante

2019-04-29 · 3 · 485

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Pablo Trapero nos entrega a experiência completa do que era uma família no tempo de nossos pais/avós. (Era, porque a família foi destroçada pelos marxistas culturais.) Todos os elementos estão no filme. As fotos inapropriadas que servirão para os mais velhos alimentarem suas memórias. O amor juvenil entre primos e as traições, que fazem rima com as declarações de amor eterno dos noivos. A matriarca e suas opiniões antiquadas, que soam familiares e por isso não conseguimos simplesmente dizer que ela está errada. Quem diria isso para a própria mãe ou avó?

Este é um road movie do começo ao fim. Depois de muito tempo sem se verem, em uma reunião a vovó recebe a notícia que sua sobrinha irá se casar e que ela foi escolhida como madrinha. Ela emocionada declara que todos irão para a festa, e ninguém consegue dizer não para a anciã próxima do fim da vida com felicidade nos olhos. Ao mesmo tempo ela sabe que não será uma viagem fácil, o que faz sua pressão subir.

A viagem feita em um trailer parte de Buenos Aires para o extremo norte do país, na província de Misiones, quase em Foz do Iguaçu, o rio à frente demarcando o limite com o território brasileiro. A paisagem inicia desértica com avestruzes em volta da estrada e vai ficando um verde vivo e ao mesmo tempo saudosista, daquelas fotos de anos 70 ou 80 de passeios pelo campo. O motorista é o orgulhoso e mal-humorado Tio Gordo (e toda família tem um tio gordo… eu tinha), que não deixa ninguém mexer em seu trailer e que olha para o cunhado com um misto entre desconfiança e desprezo.

Há a bordo um casal de primos e uma amiga. A tensão sexual vista pelos olhos de Trapero sempre é sensual ao mesmo tempo que natural. E lindo. O contraste entre as gerações é um assunto recorrente, que o filme consegue abordar simplesmente mostrando as interações entre essas pessoas e como cada uma reage aos acontecimentos da viagem.

O garoto mais novo da família acha um cachorro em um posto e o adota. Vemos a mãe dele lavando o pobre coitado dentro do vaso sanitário do trailer. A vovó, sempre com calor, reclama a viagem inteira. Quem tem pessoas mais velhas na família irá se identificar muito. Aliás, toda a viagem é a vida inteira em família resumida em um fim-de-semana.

Este é um filme que usa o naturalismo de suas situações e tem a vantagem de um diretor obcecado pelo controle da câmera, entregando o melhor de dois mundos: uma história que evoca a vida real com um filtro estilizado que torna aquela pobreza das situações de uma beleza bucólica. Nunca se torna enfadonho, sempre está preocupado em mostrar a evolução das histórias paralelas e de seus personagens. Acompanhamos oito, nove pessoas e depois de dois dias as conhecemos como se fizesse parte da família.

Rolling Family (Argentina, Brazil, France, Germany, Spain, United Kingdom, 2004). Dirigido por Pablo Trapero. Escrito por Pablo Trapero. Com Graciana Chironi, Nicolás López, Liliana Capurro, Ruth Dobel, Marianela Pedano, Bernardo Forteza. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·