Fim de Caso

2019-06-23 · 4 · 642

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Nossa, como chove em Londre. Não me admira que os restaurantes têm essas chapelarias na entrada. De qualquer forma, além da chuva, é um clima cinzento, com o tempo instável. Me lembro de uma sequência em Fim de Caso em que o personagem de Ralph Fiennes, Bendrix, está seguindo sua amante, interpretada por Julianne Moore, Sarah, e está chovendo os diabos. Daí eles entram em um cinema, mas mal se sentam, pois ela escapa pela porta lateral. Do lado de fora já está seco e sem chuva, justamente para quando entrarem na igreja existirá o clássico quadro da luz do sol adentrando as janelas da igreja. Bem pensado, Neil Jordan.

Esta é uma das melhores adaptações que já vi de um livro, no caso escrito por Graham Greene. Por que será que escritores gostam de escrever sobre personagens escritores? E por que sempre existe alguma menção na história de como ele é menos reconhecido do que deveria? Bom, enfim, neste caso é um escritor e um amante no mesmo pacote. E no caso do filme é o Ralph bonitão Fiennes interpretando Bendrix, com seu estilo alto bon vivant que não recusa uma bebida, mas por trás dessa fachada um verdadeiro cavalheiro.

Mas até Bendrix tem limite, e a bela Sarah parece ter ultrapassado o dele. Tendo se despedido para sempre de sua vida dois anos atrás este é mais um clássico caso da falta de informação vital trocada entre os personagens que só depois de comunicado reunirá os laços antes separados. Por que as pessoas simplesmente não falam mais em vez de dizer frases bonitas?

Mas, enfim, como disse, essa é uma ótima adaptação. Há diálogos lindos e uma narrativa coesa que apenas diretores como Neil Jordan consegue nos entregar sem soar confuso, nem que seja em alguns momentos. Aqui nada é confuso se você prestar atenção, e para um filme que dá voltar entre passado e presente, muda de ponto de vista, acrescenta novas informações e nos faz rever cenas sob um novo prisma, este é um danado de bom trabalho.

Jordan tem em mãos Ralph Fiennes e Julianne Moore, que parecem tornar fácil suas interpretações. Além disso Stephen Rea, ator favorito de Jordan (Entrevista com o Vampiro, Traídos pelo Desejo), faz aqui um marido traído com a cara mais limpa do mundo e com a informação mais vital de todas. Rea faz aqui um trunfo ambulante, mas um ser humano admirável nessa tempestade de emoções e sexo (com nudez) entre Fiennes e Moore.

Agora, essa trilha sonora de Michael Nyman me dá um pouco nos nervos. Ela é enfadonha e automática, feita para telenovelas ou adaptações cinematográficas de dramas psicológicos e thrillers baratos sobre amantes em uma noite chuvosa em Londres. Me diverte mais participações escolhidas a dedo, como a de Ian Hart que faz Mr. Parkis, o detetive particular mais inapto de todos os tempos. Hart o faz com uma elegância e discrição que me faz pensar em o quanto ele consegue apenas com sua presença elevar o filme em suas cenas.

Este é um trabalho impecável de adaptação, denso e um tanto enfadonho, e motivo disso é que não se deve adaptar trabalhos intimistas como esse para o Cinema exceto se você tem preguiça de ler, pois está claro pelo filme que o livro deve ser muito melhor. Sorte do filme cair nas mãos de Neil Jordan, pois esta poderia ser uma senhora bomba instantânea para qualquer diretor menos experiente.

Estamos no final dos anos 90, mas este é um filme clássico dos 90, com um roteirista e diretor, um trabalho de filmagens e direção de arte feitos inteiramente sem computação. Um trabalho sólido, com câmera posicionada nos melhores ângulos, com a melhor mise-en-scene que um bom diretor pode prover. É admirável observar como até filmes medíocres ficam levemente mais assistíveis quando nas mãos de um bom cineasta.

The End of the Affair (United Kingdom, United States, 1999). Dirigido por Neil Jordan. Escrito por Graham Greene, Neil Jordan. Com Ralph Fiennes, Stephen Rea, Julianne Moore, Heather-Jay Jones, James Bolam, Ian Hart. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·