Fim de Festa

Fim de Festa é uma guerra declarada contra a lógica opressora burguesa, dessas que abomina o Carnaval e exige que lindas mulheres cubram os seios em público, mas ao mesmo tempo é uma diversão acompanhar essa aventura investigativa sob os olhos de quem pensa diferente: os subversivos. Que de subversivos não têm nada. É a elite brasileira que é careta, mesmo.

Tudo começa no final do Carnaval no Recife. Wanderlei, investigador de polícia, retorna mais cedo para sua casa por conta do assassinato de uma francesa. Ele encontra sua filha nua indo tomar um copo d'água e ele se lembra de como era sua esposa. Assombrado por um tempo que não volta mais, o clima melancólico do personagem de Irandhir Santos já está estabelecido em pouco menos que dez minutos de tela e a postura acertadíssima do ator, que com o olhar distante e para sempre estupefato vendo sua vida passar cria um protagonista de filme noir em clima tropical.

A francesa era esposa de um brasileiro, filho de uma mãe que escapou do país há muito tempo e que hoje olha para seus conterrâneos com o nojo que apenas brasileiros conseguem ter deles próprios. Vociferando palavras de ordem, ela é a caricatura que serve de base para praticamente todos os filmes da turminha da Ancine. Mas é divertido olhar para esta figura mais uma vez, pois ela aponta dedos para Wanderlei, que não está se divertindo nada e está cansado dessa gente lhe dizendo o que fazer.

Este é um filme antiestablishment, da turma "tem que mudar tudo isso aí" contra os "tem que manter tudo isso aí". Eu já nem sei quem é quem nessa dicotomia dilacerante que nasce nos porões de Brasília e chega como mais um meme de alarme para os tiozinhos de zapzap conseguirem se informar. A única coisa que eu sei é que este é um filme anti-establishment. E por que eu sei disso? Porque ele mostra garotas nuas, de peito de fora, sendo coagidas a se cobrirem pelo pudor e bons costumes. E é anti justamente porque não se vê muitas garotas nuas pelas praias de Recife. Se você vir, me avise.

Porém, o pudor do seu diretor (Tatuagem) e roteirista (A Febre do Rato), Hilton Lacerda, aumenta bastante quando ele aponta sua câmera para o corpo masculino. Vai entender. Essa é uma das razões pelo qual a nudez precisa ter o seu motivo justificado nos filmes. E nesse caso a explicação é que esta é uma nudez política, feminista. Quando as mulheres são coagidas a se cobrir os homens a imitam, pois "estão juntos nessa luta". É tão clichê em 2020 que chega a doer os olhos ao ver essa cena.

Melhor acompanhar Wanderlei. Pelo menos este quase xará fala minha língua, com a sua quase descrença na humanidade. É compreensível que jovens sarados possuam pautas sociais mais descoladas, com seus discursos prontos como a letra da música dos Titãs (Comida). Mas é inadmissível que homens adultos continuem se comportando como meninos. É por isso que Wanderlei já não tem mais esperança no futuro e se concentra na única fonte de curiosidade que lhe resta: investigar crimes violentos.

A brutalidade com que uma gringa foi asfixiada é o que une os diferentes pontos de vista dos brasileiros sobre o que é o Brasil. O marasmo nas investigações se contrapõe aos diálogos paralelos, que nada têm a ver com o assunto principal, mas que justamente por isso ganham uma vida extra. Este não é daqueles filmes chatos que insiste em bater na mesma tecla por duas horas seguidas. Ele é tarantinesco, no sentido que às vezes as pessoas querem apenas sentar e jogar conversa fora.

No entanto, aqui ele soa mais teatral e mentiroso que o necessário. É na falta de naturalidade com que a dinâmica dos diálogos se desenvolve que você percebe que não há uma real pluralidade de visões neste filme, mas, como quase todo filme sobre o assunto, se destaca a visão uníssona de "tudo que está errado aí". Os filmes andam muito unilaterais, fontes do ódio e ressentimento já há alguns anos.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2020-02-17 00:00:00 +0000

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