Florence: Quem é Essa Mulher?

"Florence - Quem é Essa Mulher?" é uma ode à mediocridade. Ele brinca com analogias que fazem todo o sentido do mundo hoje em dia, quando mega-produções são "proibidas" pelos fãs de serem criticadas por gente especializada, e embora muitas pessoas acabem de fato gostando do resultado dessas produções, embora muitas vezes pelos motivos errados. Afinal de contas, quem nunca deu risada em uma cena da série Transformers, ou até desses terrores enlatados como a interminável série Atividade Paranormal?

Porém, a alma do filme não é ninguém menos que Meryl Streep, que faz a figura (real) de Florence Foster Jenkins, uma socialite que viveu da herança de sei pai. Porém, não confunda com figuras como a fútil Paris Hilton; Florence é uma ricaça de bom coração, que gosta de ajudar pessoas envolvidas com a música, e não uma caricatura que os filmes nacionais gostam de pintar (como a megera de Que Horas Ela Volta?). Seu marido, St Clair Bayfield (Hugh Grant) é um aristocrata ilegítimo e um ator tão medíocre quanto Florence era como cantora. Ambos vivem um relacionamento de afeição por décadas, e está claro que Bayfield é sinceramente dedicado a felicidade de sua esposa (mesmo tendo uma namorada e dormindo com ela em um apartamento pago por Florence), e é essa dedicação legítima que faz toda a diferença na história, que não é sobre um coração desenganado; na pior das hipóteses, a ingenuidade senil de uma antifriã da caridade.

Todos parecem gostar de Florence, e todos a elogiam, o que faz surgir a seguinte questão: até quando vai a honestidade humana? Quem, no ápice de sinceridade acima de tudo, no círculo de amigos da caridosa, simpática e cheia de vida mulher diria que ela é uma péssima cantora? Entre os antigos amigos, ninguém; mas se olharmos para a (essa, sim, fútil) namorada de um dos ricaços desse círculo (Nina Arianda), sem dúvida. Porém, aqui ainda temos uma figura mais interessante, e a chance de ver isso pelos olhos de um novo amigo que chega para ser o pianista que a acompanhará em seu retorno aos palcos. Interpretado de maneira surpreendentemente cômica pelo ator da série The Big Bang Theory, Simon Helberg, há uma sequência inicial impagável em todos os seus repetitivos momentos que apresenta o afeminado, estranho e divertido Cosme.

Mas o filme não é daqueles que exagera para fazer rir. Ele é excêntrico por natureza porque seus personagens são, embora realistas, excêntricos. Estamos na Nova York de 1944, e há uma fotografia e uma direção de arte particularmente deslumbrantes aqui. O filme valeria a pena só por isso. Aqui o glamour é old fashioned, mas tão charmoso que dá vontade de viver aquela época. E nesse caso, o clima até combina com Alexandre Desplat, cuja trilha sonora sempre exagerada dessa vez funciona perfeitamente para a ocasião.

E se mesmo com a interpretação rica, humana e como sempre, inesquecível, de Streep, é difícil entender como uma mulher consegue se enganar a respeito de seus dotes musicais por toda a vida, basta olhar para seu drama pessoal, sobrevivendo a sífilis desde os 18 anos de idade. Essa mulher já ignora a própria morte há 50 anos; a falta de talento não parece ser algo digno de nota. Seu bom humor e sua capacidade de distorcer a realidade, obviamente auxiliada pelo sempre solícito e cavalheiro marido, torna a experiência não um estudo de personagem caricato, mas de um coração de uma personagem que dificilmente se encaixaria em uma outra atriz.

Hugh Grant também não deixa por menos, e apesar de ser um ator limitado (algo que seu personagem também admite, em diálogo), desempenha um pilar moral necessário para que toda a história não vire apenas uma chacota inocente, e consiga caracterizar aquelas pessoas como seres humanos vivendo como podem. Nesse caso, a fonte aparentemente inesgotável de dinheiro vem bem a calhar.

Com a direção fluida de Stephen Frears, a maior vantagem de "Florence - Quem é Essa Mulher?" é não ser dirigido por "mãos pesadas" como as de Ron Howard. O controle do mise en scene de Frears nem sempre é perfeito, pois ele se deixa apaixonar facilmente pela Nova York dessa época (como culpá-lo?), exibindo câmeras externas que sempre sobem quando um personagem sai às ruas, a impressão é que há uma necessidade forte de fazer valer o orçamento do filme. Não importa. Cada minuto nesse universo realmente faz valer a pena. Tanto que os próprios créditos iniciais e finais fizeram parte da brincadeira.

Wanderley Caloni, escrito para ou com a ajuda de Cinemaqui, 2016-06-10 00:00:00 +0000

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