Flow: The Psychology of Optimal Experience

Este é um dos livros mais importantes que já li e acredito que pode ser muito importante para você também. Por isso quero dedicar algumas linhas para argumentar por que você deve lê-lo, ainda que ele seja denso demais para a maioria das pessoas. Há um outro review que gostei bastante no link principal deste post, além das minhas anotações de leitura. 1

"Rather than presenting a list of dos and don'ts, this book intends to be a voyage through the realms of the mind, charted with the tools of science. Like all adventures worth having it will not be an easy one. Without some intellectual effort, a commitment to reflect and think hard about your own experience, you will not gain much from what follows."

Baseado na pesquisa científica conduzida nos anos 90 pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, o intuito era descobrir o que torna as pessoas felizes. Os resultados são descritos em uma explicação loquaz, densa, filosófica e quase inalcançável. Há tantas notas de rodapé que elas constituem um grande capítulo à parte no final, nos direcionando de maneira enfática para outras obras onde cada detalhe dessa questão é explorada em mais detalhes. Nada mais justo, pois a felicidade é tema desde sempre para toda a humanidade. Portanto, há muito material prévio. Para ter uma ideia, a viagem começa por Aristóteles e seu eudaimonia (como viver a boa vida).

Começar pelo filósofo grego é uma boa ideia, pois o que Csikszentmihalyi gostaria, além talvez que soubessem soletrar seu nome corretamente, é que através dos inúmeros exemplos de vida das pessoas em sua pesquisa conseguíssemos extrair maneiras de viver a vida como ela deve ser vivida. Um desafio e tanto, ainda mais hoje em dia, em que há tantas dúvidas sobre nosso lugar no mundo, e é necessário jogar todas as ideologias na lata de lixo para conseguirmos progredir em vez de ficarmos estáticos, impotentes, vendo o mundo pegar fogo como a antiga Roma.

Os melhores exemplos coletados são ricos, inspiradores, mas não para simples imitação. Este não é um livro da série "como ficar rico" ou "como ser feliz" com uma fórmula mágica a ser seguida. Mihaly tira tudo que poderia ser interpretado como uma receita de bolo e vai fundo na análise objetiva dos motivos pelos quais trabalhadores braçais de fábricas de Chicago, fazendeiros dos confins da Ásia, enxadristas e escaladores profissionais descrevem todos eles, quase da mesma forma, as atividades que para eles faz a vida valer a pena. Sim, tarefas tão díspares entre si possuem a mesma conclusão para este grupo diverso e que aprendeu a viver cada um à sua maneira.

A problemática da complexidade do livro para a maioria dos leitores é que ele vai fundo demais, analisando a relação do indivíduo com a sociedade, com a religião e cultura em um nível histórico, biológico e até mesmo filosófico. O autor primeiro se esforça para definir o que é consciência da maneira mais científica, sucinta e brilhante que você verá em um texto com esse rigor, e a partir disso ele analisa como nós podemos nos aproveitar de seu funcionamento para tirar o máximo possível dessa experiência mágica que é estar vivo.

O próprio ato de ler este livro já se torna fruto de momentos inesquecíveis de prazer. E o motivo é porque entendê-lo é um desafio à altura. Não é fácil, mas nem difícil demais. O leitor médio e leigo pode alcançar a compreensão, e é justamente a dificuldade em entendê-lo que o faz ter valor, e ao ter valor nos sentimos recompensados pela atividade de decifrar o problema de viver a boa vida proposta no livro.

Sobre a consciência, ele revela seus limites usando métricas de processamento de dados, como quantos bits de informação nossa mente focada é capaz de processar por segundo, e por que, seguindo essa métrica, concluímos que é impossível prestar atenção, por exemplo, em quatro pessoas falando ao mesmo tempo.

Com essa definição objetiva o livro reduz nossa percepção de mundo através dessa janela que chamamos de consciência para em seguida mostrar como é ela que define nossa realidade de fato, e não o mundo exterior. E isso é vital para entendemos porque não importa de fato qual atividade desempenhamos, mas como nossa consciência a interpreta.

A teoria de flow apresentada no livro diz respeito em como podemos manipular nossa visão de mundo para extrairmos o nosso melhor, sendo melhor relativo ao objetivo que cada um deseja experienciar. No entanto, atingir esse estado de espírito ótimo não é relativo. Contrário ao relativismo de nosso mundo o livro afirma, com base na ciência, haver de fato atividades mais prazeirosas e significativas que outras, ou melhor dizendo, há formas de conduzir essas atividades de maneira a atingir seu máximo de aproveitamento, satisfação, significado, prazer.


  1. Meus recortes ↩︎

Wanderley Caloni, 2020-09-27 00:00:00 +0000

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