Fome

Fome é um filme lento e arrastado, com seu lado amadorístico, com uma direção/edição que se apaixona pela forma e não sabe a hora de cortar. Com a falta de ritmo em vários momentos, e um contraste curioso entre ficção e realidade, pode-se enxergar com clareza que este não é um trabalho para qualquer um, por exigir paciência e determinação em decifrá-lo. Ao mesmo tempo, ele permite diferentes interpretações, das mais simples às mais complexas; tudo depende de como se enxerga os objetivos de algumas decisões narrativas e estéticas da história.

Mas a história em si é bem simples. Acompanhamos um velhinho sem-teto pelas ruas do centro da cidade de São Paulo. Arrastando um carrinho de compras com as rodas desgastadas, onde guarda seus pertences, é entrevistado por uma garota para um trabalho de escola. Daí ele ganha o nome de Malbrough, o general de uma das músicas folclóricas francesas mais famosas, "Marlbrough s'en va-t-en guerre", e a única música que o distinto maltrapilho se recorda.

Isso porque Malbrough já viu a morte várias vezes em seus colegas. Alguns morriam de fome, outros de doenças. Mas, de acordo com ele, a maioria morria mesmo é de depressão. O desafio de morar nas ruas é não morrer de tristeza. Não desistir. Malbrough é o general de uma guerra invisível contra o status quo da sociedade ocidental. E, como na música, ele não sabe quando vai voltar.

Malbrough é interpretado por Jean-Claude Bernardet, um teórico, cineasta e escritor de cinema brasileiro. Há um momento que ele é abordado por um de seus ex-alunos, que tenta ajudá-lo a destravar seu carrinho, mas acaba em sua breve conversa criticando a postura inconformista e descontrutiva do intelecto de seu professor. Nesse momento, e apenas nesse momento, conseguimos obter um pouco mais de informação sobre um protagonista que nada fala e pouco interage. Como iria interagir? As poucas pessoas que o abordam é para dar restos de comida ou fazer entrevistas para a escola.

E eis que surge a temática ambiciosa e cheia de potencial de "Fome". Articulando de maneira inocente, quase pueril, um movimento ideológico que critica a burguesia, o clero, a academia "vendida" e o blá-blá-blá que gira em torno de tudo isso, a situação de abandono de Marlbrough pode ser confundida tanto com uma crítica à sociedade quanto ao próprio cinema brasileiro, transformando a figura interpretada por um crítico de cinema em um instrumento de metalinguagem recursivo.

Inundado de tantas convicções, e incerto do foco que pretende tomar, o filme esbanja conjecturas, mas evita concluir qualquer coisa. Nunca satisfeito com seus inúmeros fechamentos, e tortuoso com um roteiro adaptado através da experimentação do diretor Cristiano Burlan e sua equipe, o pseudo-documentário possui a virtude de manter um preto e branco realista na medida que fotografa as diversas paisagens urbanas da parte central de uma megalópole com um granulado de luz estourada. Como ficção, possui o eterno defeito de tentar aplicar uma ideologia em cima de ideias muito mais complexas. De fato há uma guerra aqui: entre um realismo que faz pensar e uma ficção que pede para pararmos de pensar.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2016-07-28 00:00:00 +0000

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