Hannah e Suas Irmãs

2019-08-14 · 4 · 802

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Terminar um filme do Woody Allen como Hannah e Suas Irmãs é voltar a ter esperança na humanidade. Não que o filme tenha essa mensagem, mas é que seu diretor e roteirista demonstra um conhecimento tão absurdo da alma humana que é como se você não estivesse mais sozinho no mundo. Como se alguém finalmente desse o sinal de vida: “Eu existo. E eu sei como tudo isso é tão sem sentido.”

A história é mais uma de traição em família, mas dessa vez com mais personagens e uma complexidade que sempre nos mantém entretidos em observar como essas bolas conseguem ficar no ar por tanto tempo e pousarem nas mãos do roteirista de maneira tão graciosa no momento certo.

Como o título já sugere, esta é a história que fala sobre Hannah e suas três irmãs, todas bem diferentes entre si e ainda assim com uma espécie de conexão de quem sabe que são irmãs. Seus pais eram lindos, do show business e hoje se limitam a gritar um com o outro e realizarem um show privado com toda família no dia de Ação de Graças em frente ao piano. Você de imediato acredita que esta é uma família upper side de Nova Iorque e eu acredito que eles moram lá mesmo.

O marido de Hannah tem uma queda pela cunhada, Lee, que vive com seu ex-professor da faculdade, que quando começa a falar sobre o declínio da sociedade contemporânea fica claro como ambos estão dessincronizados da vida. Já Elliot, marido de Hannah, é um mero estopim de um acontecimento que você percebe as consequências conforme o estado de humor de Elliot se altera, mas é mais marcante observar se Hannah irá descobrir o acontecido, ou se isso importa em primeiro lugar.

Ouvimos os pensamentos de alguns personagens desta história por algum tempo no início dos curtos capítulos que demarcam a passagem do tempo com um título que está contido em uma fala e com acontecimentos que justificam esta pausa na passagem do tempo. Esse traço charmoso do filme faz com que entendamos como cada ser humano é egoísta à sua própria maneira, internamente, como lamentando por um arquiteto bonitão ter escolhido sua irmã em vez de você, e ao mesmo tempo delineia com perspicácia essa fina divisão entre o público e o privado de nossos egos (afinal, são irmãs, e uma deveria querer o bem da outra).

Allen também participa como o ex de Hannah, que tem uma crise existencial porque possui uma deficiência no ouvido que vai pesquisar com os médicos e começa a ficar paranóico conforme os testes começam a sugerir que algo pior pode estar acontecendo com ele. É um episódio à parte do resto da história, mas, acredite, ele não atrapalha, tem ótimos momentos, corta bem a tensão do filme e ainda se encaixa na história, pois há um momento que ele e outra irmã de Hannah, Holly, saem no pior encontro de todos (uma noite que você vai querer acompanhar).

Este roteiro é da época áurea de Allen e ele dá o devido respeito ao seu material nos brindando com uma direção coesa, que não tem medo de filmar da maneira que melhor enfoque os dramas privados dessa família: caminhando com eles pelas paredes de casa, como se estivesse testemunhando um momento muito íntimo da vida deles, o que torna o momento mais importante ainda. É mais drama e menos comédia, então a câmera está mais próxima de seus personagens, quer entendê-los, mas percebe que essa tarefa pode ser a mais impossível de todas.

A trilha sonora, como sempre, mas aqui mais do que nunca, talvez, é inspiradora, nos faz sentir bem onde estamos sentados, relaxados, prontos para acompanhar cada uma das questões que se abrem conforme a traição dá sequência, ou o conflito eterno entre uma irmã que não sabe o que quer da vida e Hannah que sempre a suporta. O que quero dizer é que a música faz o papel dessa imersão na história do universo do cineasta tão bem que é como se ele próprio estivesse nos convidando para adentrarmos em seu palácio mental, e pra isso coloca uma música de sua autoria (não é, claro).

Mas voltando a ter esperança na humanidade. Hoje em dia existem milhares de séries dramáticas em que pessoas assistem dezenas de horas em frente à TV ou seus celulares para acompanhar as migalhas que os roteiristas entregam de cada unidimensional personagem criado como uma muleta afetiva que todos precisamos. Que miséria frente a um roteirista como Allen, que planeja e executa um drama existencial multifacetado com diferentes personagens e ambições e entrega com uma trilha sonora charmosa em menos de duas horas. E você está livre para fazer o que quiser de sua vida depois disso. Praticar o budismo, ou trair sua esposa, por exemplo.

Hannah and Her Sisters (United States, 1986). Dirigido por Woody Allen. Escrito por Woody Allen. Com Barbara Hershey, Carrie Fisher, Michael Caine, Mia Farrow, Dianne Wiest, Maureen O'Sullivan. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·