Histórias Proibidas

2020-06-22

Um filme pesado como Coringa e Parasita. Desses que você acha sensacional, mas não quer pensar a respeito das implicações morais da história. No caso, das duas histórias. Uma mais curta e outra mais longa. A curta se chama Ficção e a longa… acertou: Não-Ficção. E apesar dos nomes as diferenças são poucas. Ambas apelam para o lado mais dark do ser humano, em específico da sociedade norte-americana.

Já tem umas décadas que virou lugar-comum criticar a família americana que vive nos subúrbios, a famigerada classe média. Os que criticam são os baby boomers e seus filhos e netos, um pessoal que cresceu em um ambiente livre de privações financeiras e cuja única maneira de se revoltar contra tanta riqueza foi narrar o que viveram sob o viés marxista que aprendem nas universidades.

Sob este viés paradoxalmente não existem valores nem moral. Somos apenas matéria interagindo com matéria. Átomos que encontram outros átomos. No entanto, os átomos ricos sentem pena dos átomos pobres. Pobres partículas! A partícula-empregada é a que mais é oprimida. Veio de um país miserável e violento sofrer no país mais rico do mundo. Seu triste destino é trabalhar como uma condenada e em troca sentir saudades da época maravilhosa em que vivia com sua família no inferno.

Mas quem liga? Não somos apenas matéria interagindo com matéria? Átomos não possuem sentimentos, e se os possuem pouco importa. A dor é apenas reação química. Coisas como sentimento e senso de justiça não pertencem a este mundo. Não de acordo com Marx, que apenas descreve o mundo físico como se o homem vivendo nele não importasse o suficiente para ter uma voz. É curioso como esta voz uníssona pós-iluminismo tenha se tornado lugar tão comum nas mentes que de acordo com seus donos possui mais solidariedade. Hoje em dia monopolizam a virtude do bem, seja lá onde ele esteja.

Vamos parar por aqui com a filosofia barata usada nesta produção independente, que quer começar chocando o mundo mostrando peitinhos de uma jovem que será a rival de Reese Witherspoon em Legalmente Loira (sim, é Selma Blair, e está fantastilícia). Os descendentes da prosperidade estão apenas tentando explicar o que está de errado no bairro onde passaram suas perfeitas infância e adolescência. E nada melhor que uma teoria totalmente desconexa da realidade para que qualquer conclusão seja válida, de preferência a sua conclusão, para dar vazão ao xororô dos artistas carentes dessa geração.

Este é um filme que narra as aventuras de personagens que seu criador, Todd Solondz, não tem o mínimo interesse em humanizar. Até o adolescente problemático que é seu alterego (Solondz nasceu na cidade onde se passa a história) não possui uma alma. A vida é tão vazia nos subúrbios de New Jersey que fica difícil acreditar como aquela família ainda não se matou. “Eles são alienados”, seria a explicação. Ainda bem que temos seres humanos revoltados… quer dizer, iluminados, que nasceram nessas famílias para nos esclarecer. Sob a forma de filme de arte.

O universo onde se passa esta deprimente, previsível, fascinante e engraçada história é um proto-Beleza Americana, aguardando por mentes mais maduras, como Kevin Spacey, que não se deixa levar pelas hashtags da moda (#metoo) e que conclui seu raciocínio sem precisar de um desfecho deprimente, para melhorar o contexto. Histórias Proibidas é clichê demais fora de Hollywood para ser chamado de corajoso. Mas tem potencial. Tanto que sua versão adulta com Spacey diz a mesma coisa, mas sem o dramalhão da classe média alta, como visto em Parasita e neste filme.

O exercício de futilidade ao qual o filme se entrega neste longa dirigido com muita paixão e pouco cérebro é belíssimo de acompanhar pela sua ironia intrínseca sobre qual a voz que está conduzindo esta crítica social. O resultado continua forte e tenso, mas só se você fingir que não existem bandeiras sendo levantadas.

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