Homem Aranha: Longe De Casa

2019-07-17 · 4 · 793

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Começando como uma Sessão da Tarde de férias e terminando com um Tom Holland um pouco mais maduro em seu papel de collant, “Spider-Man: Far from Home” é o filme que consolida o status-quo da Aranha-Teen junto da saga infinita da Marvel, a mega-produtora da série para o cinema. Com a vantagem em já possuir fãs assíduos da saga, o episódio conta com um casting minimalista de personagens e atores carismáticos que piscam o tempo todo sobre onde vivem, as aventuras que viveram e os heróis que eles conhecem. E que estão ocupados porque essa é a aventura de um adolescente e sua puberdade.

O roteiro de Chris McKenna realiza uma das alegorias mais visuais sobre fake news até agora, com um óbvio vilão que se utiliza de ilusões para possuir o afeto de seu público em uma fala final profética: “Você verá; as pessoas precisam acreditar. E irão acreditar em qualquer coisa”. Destaco essa fala porque ela resume de maneira trágica o que nos torna humanos, sendo uma virtude ou uma falha, e que soa como ameaça quando nos enxergamos em áreas sensíveis como política e religião.

Mas estou crescendo além do que esta aventura infanto-juvenil deseja ser. “Far From Home”, apesar do título, não vai tão longe, e prefere caminhar sob as muletas fáceis no meio da história, como o ciúmes de Peter Paker de sua tia (Marisa Tomei), ou seu desejo pueril, singelo e fofinho de conquistar a garota que está afim (MJ, interpretada por Zendaya, que faz parecer fácil uma personagem cheia de sutilezas). Além disso, McKenna resolve de maneira preguiçosa alguns pedidos da história, como manter convenientemente o amigo “nerd de cadeira” de Peter de escanteio com um namoro improvável e algumas partes do plano maligno do vilão que servem apenas para apresentar seus capangas.

Aliás, o personagem de Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr) é uma figura amada e odiada por toda a saga marvelesca, pois pelas minhas contagens este é o terceiro vilão que surge novamente de pessoas ressentidas com ações do império Stark (os anteriores são Homem de Ferro 2 e Homem-Aranha: De Volta Para Casa). Deve ser um fardo, mesmo, conseguir combinar histórias que cumprem a cartilha de diversidade e do politicamente correto se ancorando em um capitalista, gênio, herói e filantropo. E agora um mártir.

Tom Holland em sua ponta em Guerra Civil e em sua estreia solo De Volta ao Lar demonstra todo o carisma e competência em vestir a máscara do herói mais amado de Nova Iorque ainda em uma idade em formação, mas aqui ele encara mais um desafio com louvor: sua primeira aventura com peso dramático. Diferente de suas duas gerações anteriores, não tivemos o mito de criação baseado na morte de Tio Ben, e aqui seu padrinho nos Vingadores, Homem de Ferro, faz esse papel paternal e uma literal passagem de bastão, e Holland consegue em todos os momentos mais ou menos sérios do longa se portar como alguém que podemos de fato chamar de super-herói.

Porém, ao mesmo tempo, como todo filme que se passa no mesmo universo, se perde muito tempo com burocracias já conhecidas, como referenciar o passado, a mini-trama inicial seguido de uma reviravolta, mais uma reviravolta, piadas inseridas no meio, e quando a ação realmente decola estamos na última meia-hora da aventura em ritmo acelerado. Mas é uma surpreendente super-produção de verão, que filma em praticamente todas as locações reais, como Veneza, Praga e Londres. Exceto Holanda, a parte mais embaraçosa do longa, onde Peter se vê em uma cidadezinha cheia de estereótipos de países nórdicos e uma nave pousa em um canteiro de flores com um moinho de vento ao fundo.

Tudo isso compensa em pelo menos dois momentos de ação desenfreada que envolvem a tal ilusão que citei que realiza tão bem a alegoria do fake news. O diretor Jon Watts realiza com maestria essas sequências, que são complexas como trama e como ação, exigindo o suficiente para que o espectador saia da sala com uma sensação de ter visto algo com uma textura minimamente séria. As sequências das ilusões abusam de movimentos rotatórios e criações que mesclam realidade virtual com puro delírio visual, lembrando, ainda que de longe, o melhor filme do Aranha até o momento (estou falando, óbvio, de Homem Aranha no Aranhaverso).

Referenciando todo o universo de Vingadores e até trabalhos cinematográficos mais distantes como Matrix, Homem-Aranha: Longe De Casa no final demonstra ter um coração além de tecnicidades, o que compensa toda a jornada. E esse coração só é possível graças ao seu elenco, que apesar de algumas falas embaraçosas (como a do vilão, que fala dez vezes que vai matar alguém), ainda consegue demonstrar uma multidimensionalidade que os filmes sempre tentam utilizar sem muito sucesso.

Spider-Man: Far from Home (United States, 2019). Dirigido por Jon Watts. Escrito por Chris McKenna, Erik Sommers, Stan Lee, Steve Ditko. Com Tom Holland, Samuel L. Jackson, Jake Gyllenhaal, Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·