Homens?

Esta comédia de Fabio Porchat tem umas boas sacadas eventuais, embora apenas nos diálogos, evocando tanto o roteiro quando a direção de Porta dos Fundos, um canal fundo de quintal do YouTube que virou mainstream e diminuiu o número de piadas ousadas para chegar em um meio-termo entre ficar rico e agradar ao público que se acha inteligente. É a história de um homem com disfunção erétil porque vive em um presente em pleno pós-apocalipse, onde o politicamente correto e o feminismo castra as pessoas mesmo sem elas saberem, e onde o lado "oprimido" toma conta do jogo da "opressão". Além disso, não tem graça nenhuma esse pano de fundo. É melancólico, simbólico e depressivo; e inconsciente e inconstante.

E por falar em consciência, eu me pergunto até que ponto existe consciência entre os criadores de séries como essa e o capitalismo hoje socialmente engajado que tenta surfar na onda dos protestantes de internet assumindo temas que se acredita serem relevantes em nossa época. Porém, a real pergunta que deve ser feita é se a consciência precisa fazer parte do pacote de um programa de humor, se deve estar nas palavras de seus personagens. Porque, sinceramente, saindo da boca dessas pessoas o conteúdo se torna não apenas insuportavelmente ruim, mas absurdamente imbecil. A série evoca mulheres socialmente conscientes ignorando se as mulheres realmente conseguem ou deveriam pensar em primeiro lugar.

É nessa dúvida cruel que você percebe que assiste ao show mais porque o elenco masculino é divertido e simpático, sacrificando seu bem estar mental e tendo que suportar discursos aloprados de quem anda lendo/assistindo muito blog/canal de opinião, pelas risadas de situação do roteiro, que são engraçadas, mas que poderiam ser acessadas em outros conteúdos. Comédias dos anos 90, por exemplo.

O pior de ter que assistir Homens? pelas piadas que não têm qualquer relação com o tema da série são justamente as mulheres. Essas tristes criaturas que se assemelham a fantoches bem pagos para representar através dos mais diferentes estereótipos, como a artista negra, a swingueira responsável, a mãe de família que banca o marido, o que existe de mais moderno no mundo contemporâneo. E, apenas para deixar claro, a palavra moderno não é um elogio.

Wanderley Caloni, 2022-05-18 21:39:46 -0300

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