Irreversível

Este é um rascunho e está sujeito a mudanças.

Irreversível é essa experiência angustiante que vai desconstruindo uma história simples através dos seus momentos mais tensos. "O tempo destrói tudo" é o seu lema, e este é um filme que destrói o tempo antes que ele nos destrua.

Semelhante a Amnésia a cronologia começa pelo final voltando cena a cena, mas diferente do roteiro de Jonathan Nolan aqui o que torna o resultado palatável pelo espectador é a intensidade do que vemos, nos impedindo de esquecer o que move a história: o estupro de uma mulher e a vingança de seu namorado.

Este com certeza é um filme 18+ e seu diretor Gaspar Noé usa toda violência que o justifique, começando por um braço sendo quebrado de forma brutal seguido por uma cabeça sendo estraçalhada com um extintor, em um dos exemplos mais eficientes do quê a união de várias técnicas de efeitos visuais de nosso tempo consegue fazer. As ações ficam muito tempo em nossa memória, criam uma impressão forte, que será usada para a montagem de nossa percepção dos personagens, suas motivações e personalidades. É um filme imediatista, que se passa em apenas uma noite, mas isso não impede que nas entrelinhas haja espaço para refletirmos.

Note, por exemplo, como o amigo do personagem de Vincent Cassel, interpretado por Albert Dupontel como alguém que racionaliza até o ato sexual, e que se sente impotente ao que foi feito com sua ex (Monica Bellucci) ao encontrar o suposto culpado o agride até a morte certa, como um verdadeiro animal. E este é um filme sobre sexo e sexualidade, e o estupro é o momento central dessa discussão sobre o reflexo animal dos seres humanos, tão civilizados em alguns momentos, respeitando o fato que não estamos mais com uma pessoa como parceira sexual, até a traição banalizada, ou a possessão de um corpo pelo simples prazer e satisfação pessoal.

Este não é um filme moralista. Ele não se permite julgar as ações de seus personagens porque insiste em fazer o espectador pensar no que está vendo. Muitas vezes pensar no que está sentindo. Nós somos moralistas a maior parte do tempo, mas o que acontece quando um filme como esse coloca nossos instintos mais primitivos na nossa frente, como um espelho?

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