Jaspion: mais profundo que Star Wars

Wanderley Caloni, 2020-08-19

Não à toa, essa série japonesa dos anos 80 fez enorme sucesso no Japão e no mundo. Ele eleva a fórmula de ação japonesa com monstros gigantes (gênero conhecido como tokusatsu) a um novo patamar, adicionando estrutura no roteiro, direção coesa, trilha sonora envolvente, efeitos visuais satisfatórios (até hoje), poucos diálogos explicativos (o que é uma mania japonesa, principalmente em animes) e profundidade filosófica mais madura que Star Wars (o que não é difícil, mas convenhamos: é sobre monstros e um robô gigante).

A estrutura de roteiro é formulaica para cada episódio, mas cada um deles é uma parte que acrescenta ao todo da história. Nos primeiros episódios do espaço ele nos apresenta a ameaça de que o planeta Terra pode ter o mesmo destino dos outros visitados pelo terrível Satan Goss. Esse vislumbre adiciona peso dramático à jornada do herói e para nós, mesmo de maneira inconsciente. A mensagem é martelada: o jovem e inexperiente Jaspion terá que amadurecer na marra.

Além disso, dentro do episódio O Triste Fim de Sakurá, por exemplo, existe uma crítica aos maus usos da tecnologia, com direito a referência ao "olho" do personagem icônico HAL-9000 de "2001 - Uma Odisseia no Espaço). Se repararmos nisso o título fará mais sentido. Mas a coisa não para aí. Enquanto Sakurá observa seu ódio tomando conta do planeta, os monstros que nele habitam não os possuem, e atacam por puro instinto, sem motivo racional, apenas manipulados por essa máquina criada pelos próprio humanos, um satélite largado por lá. O último habitante humano toca piano para acalmá-los, apelando para seus últimos instintos não-destrutivos. O planeta está totalmente congelado, uma referência a atitudes meramente racionais e sem emoção. Até Anri, a androide companheira do herói, é abduzida.

Os efeitos visuais usam várias técnicas diferentes em conjunto. O monstro aparece como fundo projetado, mas na luta contra Jaspion vemos partes do seu corpo gigantes interagindo com o herói. A mistura de elementos projetados com elementos criados em cena (como fumaça e fogos) só funciona até hoje por causa dos cortes rápidos e precisos que dão a impressão de movimento sem necessidade de soar barato. Os efeitos em Jaspion apelam para nossa percepção inconsciente de movimento com muita dedicação. Quando ele entra por um túnel cheio de quadrados coloridos ele é justamente assim para dar a sensação de movimento e desorientação, pois a câmera se move por um tubo que ainda rotaciona.

Os poucos diálogos explicativos servem apenas como atmosfera para o público mais jovem, mas até mesmo as frases jogadas como "advertência para a humanidade", últimas palavras do satélite-vilão, possuem um duplo sentido inesperado, quase um Kurosawa anos 90, quando a ecologia ainda era uma ideia nova e vibrante construída ao longo da década passada. Jaspion é de 85 e filho desses valores que começavam a se preocupar com o caminho que a humanidade andava tomando.

E é através desses poucos diálogos e situações que reside a profundidade filosófica da aventura vivida pela série, que analisa os fantasmas de um futuro possível para os habitantes desse planeta olhando através do outro. E é através do outro e de seu passado funesto que aprenderemos as valiosas lições de sobrevivência e de amor em uma série encantadora, que pela banalidade de sua trama extrai o melhor de si e de quem estiver disposto a assisti-la hoje sem julgamentos precipitados.

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