John Wick 2

Wanderley Caloni, 2020-08-03

Um Novo Dia para Counter Strike

Quando o filme de pancadaria é mero pretexto para chamar público. O próprio gênero de ação trabalha com emoções minimalistas e brutais. Eis o motivo porque Mad Max: Fury Road funciona horrores: o único motivo de existência da história é a fuga, e o único motivo de existência de John Wick é vingança de quem não tem (mais) nada a perder. A trama funcionava bem no original em apresentar um começo, meio e fim para um herói atormentado em um drama de uma nota só.

Todos no filme falam de Wick como uma lenda, e nós temos que acreditar neles porque não é olhando para Keanu Reeves que vamos comprar a ideia. O ator faz o que tem de melhor, que é ser Keanu Reeves, e a equipe de lutadores, assim como em Matrix, o prepara para as cenas que todos estão esperando, com porrada, sangue e porrada em cima de sangue. Embora nesses filmes violentos e comerciais do novo século sempre falte sangue.

Os dois diretores que iniciaram essa franquia de sucesso, Chad Stahelski e David Leitch, vieram do mundo dos dublês. Acostumados com coreografias em cenas de ação, no primeiro filme aproveitam um roteiro mínimo para construir uma atmosfera do homem que é um fantasma do que um dia foi, e nossa imaginação preenche as lacunas.

se você já jogou Counter Strike alguma vez na vida, um jogo de tiros em primeira pessoa, não perde nada em não ver a continuação de John Wick, exceto que é um CS sem precisar por a mão no controle. Há dúvidas se filmes de ação se sustentam apenas com violência coreografada e inofensiva. Mais sobre isso no terceiro filme.

O filme original tinha um drama tão pertinente para o personagem de Keanu que esta continuação cheira unicamente a caça-níqueis para desavisados que acreditam terem achado o próximo grande herói de ação. Eles estão tão carentes dessa figura lendária que compram qualquer coisa. Até o simpático e nada másculo ator, que deixa a barba crescer em respeito ao personagem que interpreta sem nunca manter a postura. Está na moda heróis masculinos não serem mais "homens de verdade" ao estilo Clint Eastwoodiano. Wick é fraco, e daí vem seu próprio nome (do inglês "weak") e possui habilidades mortíferas em vez de um caráter forte. Ele é o melhor assassino de todos, mas está em análise se é um ser humano digno de aprovação. O único resquício de humanidade desse homem pós-moderno é nutrir memórias da perda da esposa e matar um monte de gente com eficácia, dois clichês que, não à toa, hoje em dia representam o ridículo.

Quanto aos vilões, esse monte de gente fazendo fila para ser o próximo chefão, eles representam O Sistema, o "novo" mal do século para a plateia jovem, ou para os mais velhos que catam as migalhas da virtude que restou desse tipo de protagonismo. Os mais lúdicos não ligam. Há explosão de cabeças para agitar uma noite de filme.

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