De Volta ao Jogo

2018-09-28 · 3 · 603

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Um drama pessoal que escala em uma espiral de violência e poder em um universo que caminha confortavelmente entre realismo e absurdo. O drama de perder a esposa doente depois de abandonar o trabalho que dava significado a sua vida é um realismo pesado. Roubarem seu carro e matar o cachorro que a esposa lhe deu como último presente é de um absurdo dilacerante que motiva qualquer um a sair em busca de vingança. E se você é John Wick isso significa uma sentença de morte para muita gente.

Dirigido com um cuidado especial pelos diretores Chad Stahelski e David Leitch, onde o primeiro trabalhou na equipe de dublês em filmes de ação e o segundo estava envolvido em trabalhos similares, as cores e enquadramentos harmonizam lado a lado a atmosfera de solidão; o uso de uma tela mais estreita permite que o filme coloque John Wick no começo do filme em isolamento completo. No funeral, na chuva e com toda a cidade ao fundo, ele parece ter um único amigo que o cumprimenta debaixo de uma árvore. Já sua casa é gigantesca e que se torna ainda mais com o uso minimalista da direção de arte que usa poucos enfeites, e onde as cores frias desempenham o papel de estado de humor do personagem, à beira da depressão.

Se você se surpreende com esses detalhes que descrevo em um filme de ação sanguinário é porque este é um trabalho que se destaca de todos os demais. Ele possui alma. Seu protagonista é uma força da natureza. Surpreende que que ele seja interpretado pelo inexpressivo Keanu Reeves, mas mais surpreendente é que funciona. John Wick é uma pessoa simples demais para um ator mais flexível. Ele só queria viver em paz. Já que não pode o jeito é partir para a ignorância.

Este é um filme longo e que consegue ter cenas de ação mais longas que o normal sem sentirmos cansaço. Mais uma vez acima da média, a coreografia das cenas mantêm o espectador sempre atento para descobrir como John irá passar por tantos capangas e esquemas de segurança que foram colocados entre ele e seu alvo.

Aliás, outro toque de classe na obra é seu próprio universo de assassinos. Há um valor em comum para transações que não são rastreáveis e que não perdem o valor nem para o dólar: moedas de ouro. Há um hotel onde é proibido assassinatos para que possam descansar em paz, e quebrar essa regra, pode apostar, é o que um filme desses deve fazer.

Este é um roteiro aparentemente previsível assinado por Derek Kolstad, que já trabalhou em filmes e séries do gênero como A Última Bala e Hitman. Sua estrutura simples torna claro o desfecho da história, e nisso você pode apostar em previbilidade. Mas quando se nota os personagens secundários e suas sutis reviravoltas (como a ponta de Willem Dafoe), ou como quase nada precisa realmente ser dito – o aspecto descritivo do roteiro é o que garante nosso prazer visual – daí o filme mantém um pouco de caos para uma diversão eventual. O suficiente para nos preocuparmos com o enredo.

“John Wick” mantém uma capa de realismo para usar frases de efeito como “você roubou meu carro e matou meu cachorro” ou “uma vez ele matou três caras com apenas um lápis” e não soar fantástico demais; é mais um escapismo delicioso do gênero de ação. E fica ainda melhor quando temos um protagonista tão visceral quanto este. Keanu Reaves é a força da natureza sem expressão que quando se sente ameaçado é melhor você estar do outro lado da tela.

John Wick (United States, United Kingdom, China, 2014). Dirigido por Chad Stahelski, David Leitch. Escrito por Derek Kolstad. Com Keanu Reeves, Michael Nyqvist, Alfie Allen, Willem Dafoe, Dean Winters, Adrianne Palicki. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·