Jonas e o Circo sem Lona

Jonas e o Circo sem Lona é um documentário onde a documentarista não só realiza um trabalho de metalinguagem como chega a desempenhar um papel ativo na própria história que pretende contar.

E a história é sobre o menino Jonas e o circo que ele montou no quintal de sua mãe. Com a ajuda de seus amigos, durante as férias ele treina e organiza espetáculos com a presença das outras crianças como espectadoras. Acabando as férias, as tarefas escolares viram o grande empecilho de Jonas e seu sonho de trabalhar no circo. Sua mãe luta com ele todo dia para fazer com que ele entenda o incompreensível: de alguma forma, a educação formal do menino deveria ser importante para seu futuro. Porém, o que vemos em volta daquele bairro baiano não é lá muito inspirador.

A diretora e roteirista Paula Gomes toma as rédeas do projeto de uma maneira visceral, não se intimidando nem quando seu cinegrafista aparece no filme através de um espelho. Seu desejo de ver o filme terminado é tão grande quanto o do pequeno Jonas e seu circo. Aplicando enquadramentos inspiradores -- como quando vemos Jonas à frente de um frango, após "ter virado galo", de acordo com sua avó, ao beijar uma menina -- e diálogos que vão desde conversas informais com os envolvidos até uma intimação que recebe da professora de Jonas (com uma reclamação a respeito do seu desempenho e um discurso sobre o exemplo de Jonas que não podemos ignorar), "Jonas e o Circo" vai se construindo aos poucos. Ele começa inocente, e logo vira uma discussão social complexa, justamente por não ter respostas fáceis.

Aprendemos através da família de Jonas que a tradição e as gerações mantém uma paixão pela vida circense que não é acompanhada pela realidade. Os circos hoje em dia são resquícios de uma vida mais simples, pelo menos nas memórias lúdicas que Jonas e seus amigos destacam apenas por aparecerem em cena. De qualquer forma, vemos a avó do menino o encorajando, mas de uma maneira muito mais apaixonada, saudosista, do que racional. Já sua mãe, fazendo bicos de revenda de roupas e artefatos, com o pé na realidade, é a voz da razão. E eis um embate digno de ser visto.

Porém, ao mesmo tempo, é Jonas e sua seriedade na condução de seu pequeno circo que também nos mantém presos naquela história. O menino monta uma lista de músicas para seus números, treinados à exaustão, todos os dias. Até o preço dos ingressos é pensado com dedicação, dedicação essa que falta ao menino quando é hora de acordar e ir para a escola.

Se espreitando em meio às conversas, planejamentos e discussões do grupo itinerante formado por crianças, o documentário tem um ar de autêntico ao mesmo tempo que não se priva de ter uma discussão aberta sobre o papel do próprio documentário na vida de Jonas. Ele é abordado por meninas que nunca conversaram com ele porque ele está sendo filmado. Outros alunos questionam por que está sendo feito um filme sobre ele, se ele é mais importante que os outros.

Não demora muito para que percebamos que a questão que está sendo discutida aqui é muito maior que apenas uma criança encantada com seu futuro no circo. Tem a ver com a educação formal, a realidade da vida, e como o conflito principal se caracteriza com argumentos válidos, mas ao mesmo tempo através da figura superprotetora da mãe. A cicatriz de Jonas é a marca da preocupação que sua mãe tem do filho. Mas sua preocupação vai muito além da integridade física. Vemos o presente da mãe lutando com vendas para conseguir criar o filho e entendemos sua preocupação sobre seu futuro.

E isso reflete no próprio filme. Mais ainda quando os empecilhos do sonho do menino circense começam a soar ainda mais ameaçadores. E o filme não desiste de ser feito, em um sinal de integridade da cineasta em continuar uma história não apenas apesar do revés, mas por causa dele.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2017-03-08 00:00:00 +0000

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