Jovens, Loucos e Mais Rebeldes

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes é a mais nova experimentação de Richard Linklater (Boyhood), que entra a fundo em uma análise sobre uma geração e seus estilos, ou suas tribos, e que semelhante a seus filmes anteriores, está mais interessado na análise em si do que criar qualquer história.

Se trata de um documentário póstumo em ficção de uma era que já se foi há muito tempo. O que o filme faz agora é emular em laboratório a experiência de ser jovem naquela época -- final dos anos 70 e/ou começo dos 80 -- acompanhando a rotina do time de beisebol, que se reúne antes das aulas começarem, se entrosam, treinam, bebem, procuram garotas. Tudo é permitido na universidade, pois são todos "de maior", e a tensão, se existe alguma, se encontra em se socializar, e conflitos, estes não existem. As poucas regras dos poucos adultos em cena são religiosamente quebradas. Sabe como é: pelos bons e velhos tempos da irreverência ao mundo adulto.

Acompanhamos novamente o ponto de vista de um novato: Jake (Blake Jenner), e digo novamente pois há muitas coincidências em "Mais Rebeldes" com um outro filme do diretor: Jovens, Loucos e Rebeldes (1993). Apesar de ser considerado pelo próprio Linklater como a "sequência espiritual" de "Dazed and Confused" (o nome original), este soa como uma sequência de Boyhood, já que o momento da vida de Jake coincide mais ou menos com a despedida de Manson (o "Boy") em seu filme anterior, Boyhood, e se torna uma continuação natural do processo de entender e vivenciar o que era fazer parte de jovens que iriam "mudar o mundo". De qualquer forma, é o ponto de vista de alguém que acabou de chegar em um novo ambiente e está se entrosando com sua nova tribo, seus costumes e seus valores.

Paradoxalmente a obsessão do filme com questões sociais e existencialistas, embora não muito explícita, mas aqui e ali traduzida em diálogos de um personagem que não consegue conter as palavras, acaba simplificando um pouco toda a discussão, mas acaba se mantendo no nível de maturidade de seus personagens. Nesse sentido, chega a ser divertido percebermos uma tentativa de dialogar a respeito das crenças metafísicas em um outro personagem, que acredita em telepatia e é fã incondicional do astrofísico pop Carl Sagan. Perifericamente observamos as mudanças que o mundo está passando, além da constatação mais que óbvia que o mundo não era apenas a universidade, e diferente dos personagens descerebrados das comédias juvenis de formatura, aqui estamos falando de pré-adultos: pessoas que começam a arranhar o que é viver com a responsabilidade sobre suas próprias vidas. O reconhecimento que cada um encara de uma forma é a recompensa mais madura de um filme que respeita o espectador, não criando conflitos onde eles simplesmente não existem. Afinal, uma briguinha entre amigos na vida real é justamente isso, e termina por aí.

Através de caracterizações natas e um preparo e escolha de elenco exemplares, no começo parece impossível acompanhar todos aqueles jovens sem se perder. Lá pela metade do filme você irá se surpreender que, através apenas da interação entre eles, é possível simpatizar e entender todos eles, ou ao menos os que mais participam das cenas. E os que não participam há aquela estranha sensação de conhecê-los "de vista". E esse é apenas o primeiro fim de semana juntos. Há algo de poderoso em elencar a maioria de desconhecidos e vários rostos, como já foi comprovado no filme de 93, o que serviu de porta de entrada do Cinema para Matthew McConaughey e apresentou outras curiosidades, como uma Milla Jovovich saída da Lagoa Azul e, acreditem ou não, Renée Zellweger perdida em algum lugar (não procure nos créditos; ela não está lá).

E esse é um exercício instigante. "Jovens, Loucos e Rebeldes", assim como os filmes de John Hughes, representou uma época e uma geração em um nível artístico que o separou das comédias inconsequentes, algo que o inteligente roteiro conseguiu realizar e o tempo fez provar. Hoje "Mais Rebeldes" surge com uma proposta muito semelhante em sua forma, e talvez acabe fazendo muitos do jovem elenco despontar, mas que também poderá ser usado daqui a 23 anos como uma fonte de inspiração para algo além da diversão fácil.

O filme ainda recria cenários de uma era com o tom saudosista ligado no máximo. Com uma sequência de músicas que não apelam para o fácil, mas conseguem simbolizar que pretende soar autêntico sem usar muitos hits populares, estamos em uma viagem temporal que é pelo menos prazerosa do começo ao fim. O filme faz questão de traçar uma panorâmica no clube de dança, em um show punk, cowboy e até uma festa do pessoal de artes. Todas essas experiências, embora pareçam itinerários de um roteiro pensado, ocorrem de maneira praticamente orgânica no filme. Afinal de contas, quem nunca teve um amigo que mudou completamente e virou um punk de cabelo comprido? E só por isso não significa que nunca mais vão sair juntos. Pelo menos era isso o que significava amizade naquela época onde havia abertura para experimentar de tudo um pouco. Tudo parecia uma boa ideia, e é por isso que o roteiro funciona. Há uma fotografia igualmente saudosista, que usa uma granularidade alta em um filme digital. Além da estética, o que conta é a viagem no tempo que filmes como esse proporcionam. E o figurino dos rapazes torna a representação documental tão divertida quanto significativa.

Com menos cenas de ação do que sua versão de 23 anos atrás, "Jovens, Loucos e Mais Rebeldes" é uma versão juvenil e escolar da "Trilogia do Antes" do mesmo diretor, pois contém diversas questões sendo respondidas através da observação daquelas pessoas e outros tantos através dos diálogos ocasionais. Porém, se trata de um estudo com bastante energia, e onde dança, bebidas e mulheres floreiam as boas vindas ao mundo adulto de uma forma ingênua, realista e muito agradável.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2016-09-09 00:00:00 +0000

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