Lidando com a Morte

Lidando com a Morte é um documentário da Mostra esse ano que acompanha a tentativa de construir uma agência funerária focada em diversidade em um dos polos multiculturais da Europa: Amsterdã. Esse é um projeto de longos sete anos e é questionável se o próprio projeto do documentário em si "deu certo", pois ao final a impressão que fica é que não.

Parte desse sentimento vem depois de acompanhar os esforços de Anita, gerente de uma agência funerária e a que toma as rédeas dos estudos acerca de dezenas povos e seus hábitos e rituais após a morte de uma pessoa. No começo a vemos focada e esperançosa, mas próximo do final há uma triste reviravolta que ninguém aparentemente esperava. Nem o diretor do documentário, Paul Rigter.

O que aconteceu, então, foi que os idealizadores do filme resolveram seguir adiante e entregá-lo, cujo resultado está muito aquém do que se espera em sua sinopse mais assertiva. A única diversidade ou questão levantada gira em torno de alguns poucos representante de povos africanos e muçulmanos. Há uma tentativa tímida de mostrar um funeral hoje típico holandês através do pai de Anita. Quando digo holandês me refiro às raízes cristãs, hoje ateias. Se antes havia espiação de culpa, hoje nem isso. Apenas uma canção e um vazio imenso no ar.

Se há um resultado curioso no longa é entender essa total entrega dos holandeses de sua cultura e vida em prol de uma iniciativa cosmopolita que cheira a capitalismo, mas que graças às ciclovias e discursos de tolerância, se maqueia como um Vale do Silício na Europa com o respeito à pluralidade de uma Nova York. Parte do discurso do longa é justamente colocar essa questão, mas a coloca de maneira tão tímida que acabamos por pensar: pois é, todo empreendimento precisa de dinheiro.

Anita era para ser nossas mentes e corações nessa jornada em busca de conhecimento sobre como atingir um objetivo tão ambicioso quanto criar um espaço para velar qualquer tipo de corpo vindo de qualquer tipo de cultura, mas o processo é tão burocrático desde o começo, e tão respeitoso, que a sensação é que tudo vira algo como o mascote criado na série televisiva Community; apelidado de Human Being (Ser Humano), o mascote não faz menção alguma a gênero, classe, cor ou etnia. O resultado é um bicho incolor e grotesco. É assim que eu vislumbrava o centro funerário multicultural. E é por isso que o projeto na vida real já estava fadado ao fracasso.

Wanderley Caloni, 2021-11-02 23:06:36 -0300

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