Mães de Verdade

Wanderley Caloni, 2020-10-11

O filme da diretora japonesa Naomi Kawase abre a Mostra Internacional de São Paulo e revela as dores de nosso tempo, pois possui a sensibilidade de um drama, mas a câmera, apesar de caminhar criando momentos memoráveis, não sabe exatamente o porquê são memoráveis, e com isso se torna apenas um exercício de estilo sem conexão com a realidade. É um épico do drama do cotidiano sem dizer ou saber qual é o motivo de choro.

A trilha sonora leve, quase inexistente, empalidece comparada com os sons do ambiente; sobretudo da natureza. Vento, folhas e pássaros narram os sentimentos que estão no ar e que são incapazes de se materializar naquelas pessoas invisíveis ao mundo. É curiosa a abordagem "filhos da natureza", pois ela torna a doação, o tema central do filme, em algo anti-natural, quando é justamente um dos aspectos mais lindos da história.

E a história começa de um jeito, sobre o possível empurrão dado pelo filho de uma família de área nobre em uma criança do jardim da infância e tudo o que isso decorre depois em um verdadeiro WPP asiático (White People Problem), mas de repente se transfigura na jornada de uma jovem adolescente, e tanto um quanto o outro são experiências que evidenciam o gigantesco vazio nessas pessoas.

Este filme é em boa parte do tempo a jornada da adolescente revoltadinha, porque os pais tomaram uma decisão enérgica e necessária sobre seu próprio corpo. Em direção ao vazio da alma que sente e a suposta conexão com um pimentão, oco por dentro, algo típico de novela mexicana, nas mãos de Kawase se transforma em um épico sobre o vazio das emoções humanas. Mas nem por isso deixa de ser um porre.

O filme dá voz a essa revolta adolescente de uma maneira inadvertidamente hilária, como muito se tem feito pelo mundo. Séries onde jovens são escutados quando não têm nada a dizer. É a tentativa infrutífera de ouvir o vento como se ele estivesse de fato dizendo algo.

É uma tentativa nobre, sejamos sinceros, mas infrutífera. Os detalhes de emoções individuais são sutis demais para capturarmos, exceto que este é um filme feito por alguém sensível e tecnicamente competente. Mas há algo aí? A menina "apronta" aos catorze, apaixonadinha e tudo mais, para de repente ser o centro das atenções no filme, por ser ignorada com razão pela família. E o "drama" inicial com o empurrão entre as crianças revela ao mesmo tempo as futilidade dos pequenos problemas que inventamos em nosso dia-a-dia. De qualquer forma ele revela muito mais, como a futilidade em busca do dinheiro da família do garoto, por exemplo, ou onde está o sentido da vida nos casais que não possuem filhos, porque não podem ou porque não devem?

Mas tudo isso fica para trás. Nos esquecemos do casal principal por um motivo: ou o filme se perdeu ou quis mostrar como esse detalhe do cotidiano é pequeno frente ao da outra mãe de verdade. E a jornada da busca, vamos chamar assim por falta de mais pistas no filme, se transforma em um exercício de estilo. Um filme belíssimo, arrebatador, e incrivelmente vazio. Não nos faz sentir nada exceto o prazer estético, mas sem motivo ele se desmancha à menor distração.

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