Maravilhoso Boccaccio

Fracamente inspirado no Decameron, a coletânea de novelas do autor italiano do Século 14, Maravilhoso Boccaccio é filmado como uma grande novela de contos, além de sua produção lembrar tanto uma peça de teatro quanto produções televisivas de baixo orçamento. Ainda assim, possui o mérito narrativo em suas ótimas e curtas histórias.

O pano de fundo é a Itália na época da Peste Negra, quando pessoas morriam aos montes e alguns belos jovens se isolaram de Florença, indo viver em uma casa no interior por alguns dias. Só para sentir o dramalhão que os diretores Paolo Taviani e Vittorio Taviani se envolveram ao adaptar Bocaccio, temos uma cena no início em que um pai enterra esposa e filho em uma das fossas coletivas das vítimas da praga, e os protege das pazadas de terra que recebem.

A trilha sonora pitoresta da TV, os zooms exagerados, os ângulos teatrais e a história contada como uma poesia mal amarrada tornam a experiência de ver cada um dos jovens contar uma história para não se entediarem uma oportunidade para relaxar e deixar fluir a imaginação em torno da época. Infelizmente, tal qual a recente "superprodução" brasileira Os Dez Mandamentos, o figurino disfarçado de antigo não ajuda, ainda mais quando vemos uma calcinha moderna escondida entre os panos de uma moça.

Porém, as histórias possuem suas virtudes, principalmente as últimas. O processo todo de acompanhar cada história, interpretada pelos próprios atores da "trama" principal, é um aprendizado dessa dinâmica, onde não há nada mais a ser contado do "lado de fora" desse vai-e-vem dos personagens principais.

Dessa forma, é muito mais interessante ver a história do artesão ingênuo que acredita ter encontrado uma pedra que o torna invisível, ou de uma madre superiora dando um sermão a uma das freiras sobre luxúria com uma cueca na cabeça, ou até mesmo a história mais forte de todas, a de um falcão que se torna o melhor e único amigo de um caçador que vai à falência. Esses são passatempos que valem a pena se deliciar em torno da estrutura episódica do filme. Porém, sempre ao seu final ressurge a sensação de estar apenas acompanhando uma espécie de seriado com mini-episódios de curtas independentes e que nunca se relacionam com nada. Qual a moral da história? Há muitas morais a ser extraídas, mas nenhuma ideia do que os autores imaginaram ao juntar todas essas histórias.

Ao fim, Maravilhoso Boccaccio parece uma espécie de homenagem a um autor já conhecidíssimo da Idade Média em um formato mais palatável para o grande público italiano. Poderia ir direto para a TV e teria algum público cult, mas como Cinema, se torna tão competente quanto as aventuras de Moisés televisionado pela emissora de Edir Macedo.

Wanderley Caloni, escrito para ou com a ajuda de Cinemaqui, 2016-04-27 00:00:00 +0000

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