Melancolia

2011-08-07

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

(Spoilers liberados. Portanto, sugiro ler depois de assistir ao filme.)

Lars von Trier é um realizador corajoso. Especialista em explorar as facetas menos nobres de nossos sentimentos, já ousou colocar Bjork em Dançando no Escuro, um musical sem final feliz, e Nicole Kidman no vilarejo de Dogville, onde mora o que existe de mais desprezível nas relações sociais. De uma maneira geral, a decadência humana sempre foi retratada em seus trabalhos de uma forma emblemática, porém, visual, que é onde reside a força do seu cinema.

Em Anticristo, seu trabalho anterior, o filme lidava com os símbolos cristãos ao mesmo tempo que explorava o nosso lado amoral e perverso. O fato de lidar com símbolos tornava as alegorias construídas obscuras o suficiente para dar margem a diversas interpretações. Dessa vez, em Melancolia, a história é didaticamente dividida em duas partes, sendo que logo no início existe uma espécie de prólogo em forma de sonho, onde podemos ter uma visão holística de tudo o que veremos no decorrer das duas histórias.

Aliás, preciso me reter um pouco sobre essa introdução, que é construída de maneira magistral, onde mostra em câmera ultralenta os movimentos de alguns personagens, ao mesmo tempo que vislumbra a Terra como um pequeno planeta do lado de um muito maior, o Melancolia, criando um paralelo, ainda que acidental, com 2001, só que, em vez de privilegiar a conquista humana da evolução e da consciência, dá ênfase justamente ao nosso caráter depressivo, de desânimo. O resultado, arrebatador, é o encontro inevitável entre os dois planetas, que praticamente dançam ao som da igualmente depressiva trilha sonora, escolhida a dedo, pois orna perfeitamente com o humor da situação. Essa música-tema, assim como as situações vistas na introdução, serão revistas no decorrer da história, e seus significados múltiplos irão se encaixar organicamente no decorrer da história.

Na primeira parte, intitulada Justine, o personagem-título é interpretado por Kirsten Dunst, que faz uma noiva em sua festa de casamento. Em sua interpretação merecidamente ambígua, é possível notar em Justine sua falsa felicidade, e que impacto isso tem na festa de um modo geral. É como se observássemos a festa perfeita implodindo por dentro. E esse “dentro” percebemos nos gestos, nas falas e nas expressões irônicas de Justine, que não permitem nos revelar seu real estado de espírito, como se esse estivesse coberto por uma tristeza inalcançável, e um poder de destruição implícito.

Essa primeira parte é a mais rica nas relações humanas, até por apresentar o maior número de personagens e a relação entre eles, ou até pela própria forma de filmar. A câmera desliza pelos personagens de forma afoita, com um zoom exagerado ao estilo documental, o que remete às sensações de realismo e urgência. Embora isso possa parecer desproporcional à situação, fará mais sentido se entendermos o estado de espírito de Justine, e para isso Von Trier precisa nos remeter à segunda parte do seu projeto, onde veremos, sob o lado prático, o que está, de fato, acontecendo. É só então que conseguimos detectar o desespero contido no subtexto do primeiro ato.

A segunda parte, por sua vez, é a universalização do mesmo sentimento, atribuído a todos os seres humanos, metaforicamente representado pelo fim do planeta ao chocar-se com outro, de nome Melancolia. Da mesma forma com que esse sentimento toma conta de todas as ações de uma pessoa, a colisão do planeta torna impossível viver ou simplesmente respirar, como é, aliás, simbolizado por Claire em um dado momento.

A história da primeira parte começa a fazer mais sentido quando os sentimentos de Justine aparecem à superfície em um diálogo com a irmã, em que revela já saber de muitas coisas, onde dessa vez o símbolo usado é uma tradição nupcial em que se deve adivinhar o número de feijões dentro de uma garrafa, em uma bela rima semântica com nossa capacidade de prever cálculos científicos, como a rota do planeta Melancolia.

O final, não é preciso dizer, é extremamente melancólico, e foge obviamente da cartilha de Hollywood. É óbvio que, se fosse diferente, isso insultaria a inteligência do espectador e do próprio idealizador, pois fugiria da mensagem principal do filme. Pessoalmente, não me senti particularmente depressivo, pois é uma conclusão já esperada e em diversos pontos da história previamente salientada. É bem possível que existam vários elementos “ocultos” que façam valer assistir novamente. Quem sabe dessa vez, pelo menos para mim, o filme pareça mais melancólico do que a proposta original.

Trivia

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