Meninos de Deus

Wanderley Caloni, 2021-03-27

Este filme de 2002 ainda cheira a anos 90. O padre interpretado por Vincent D'Onofrio fuma em plena igreja e não lembra em nada um padre, exceto que suas bolas ficam bem presas na presença da Jodie Madre Superiora Foster.

D'Onofrio fez o alienígena mais famoso do primeiro MIB. Era ele que se incomodava quando alguém matava uma barata. Ele é parte de um elenco talentoso deste comercial quase enlatado americano. Está na companhia do irmão de Macaulay Culkin, a própria Jodie Foster (ainda que no automático) e Jena Malone, que é a única que eleva a experiência em algo que lembra mais um drama adolescente, embora o próprio filme não leve isso a sério. O que é bem estranho e incômodo se formos pensar que há incesto e morte na história.

Se aproveitando do formato jovens fazendo besteira e desafiando a autoridade da escola religiosa onde estudam, Meninos de Deus ainda possui a péssima ideia de usar os desenhos de Todd McFarlane como o imaginário desses adolescentes espinhudos, que se unem para desenhar e escrever histórias quase depravadas sobre seus super-heróis como seus alter-egos. O filme vai traçando um paralelo como se houvesse um traço unindo as histórias, mas é apenas uma ideia boba. Distrai, mas não de um jeito bom.

Já a história envolvendo a personagem de Jena Malone (Contato, Jogos Vorazes, Sucker Punch) é a que melhor nos transporta para as incertezas e medos de uma vida sexual que começa de um jeito torto. Malone escolhe o garoto mais bonitinho para compartilhar seus anseios, e todos nós sabemos por quê, menos o garoto. Talvez nem o filme saiba direito por quê, pois traduz os sentimentos adolescentes do ponto de vista de um. Mas não importa. O sorriso de Jena é o suficiente para elevar a sub-trama.

Outro ator talentoso é Kieran Culkin, mais até que seu irmão, o astro-mirim de Esqueceram de Mim. Ele possui o auto-controle de seu sorriso irônico e é bem aproveitado em dois momentos tensos sobre a morte. É o personagem masculino que mais levamos a sério.

A direção de Peter Care é automática demais para deixarmos nossas mentes trabalhando durante o filme. Ele entrega o serviço, mas não é caprichado como seu trabalho em videoclipes. Há algo que incomoda o diretor neste material que tem tudo para ser sensível e profundo, mas que acaba sendo uma história sobre como ignorar os reais problemas da vida nessa fase jovem.

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