Mentes Sombrias

Mentes Sombrias é uma distopia adolescente que entende a mente jovem como Goonies, mas que se recusa a amadurecer como Conta Comigo. Ambos os filmes citados são ótimas referências para onde este filme/saga poderia caminhar, mas apesar do ótimo começo ele nunca se aprofunda, deixando no lugar o já conhecido efeito Marvel, a produtora imbatível de histórias que se mantêm coesas pela característica peculiar de nunca terem um fim.

E por falta de um final a personagem principal, a jovem interpretada pela talentosa Amandla Stenberg, apesar de seu potencial, não consegue se desenvolver, nada naquele mundo é resolvido e não ocorre nada no ato final que nos dê o sentimento de "closure", ou seja, de que pelo menos um capítulo de uma história maior se fechou.

A história é simples (mas por algum motivo o filme sente a necessidade de verbalizar a todo momento como as coisas funcionam): ocorre algo com as crianças (Do mundo? Dos EUA? Fica incerto) onde metade delas morre e a outra metade ganha poderes especiais, que variam da super inteligência até o controle da mente de outras pessoas. Em um governo que em apenas seis anos se transforma em totalitário, guiado pelo medo das consequências de jovens estarem à solta com esse poder (vide toda a saga X-Men) logo os sobreviventes são enviados para campos de concentração, divididos por cores (de acordo com seu poderes) e os mais perigosos sumariamente executados. A heroína, Ruby (Stenberg) é do tipo mais perigoso, mas como você pode imaginar ela consegue se safar e encontrar um grupinho que se identifica e se sente parte de uma família novamente, formado pelo líder carismático Liam (Harris Dickinson), o nerd Chubs (Skylan Brooks) e a pequena Zu (Miya Cech).

A construção da confiança de Ruby nessa família disfuncional (e vice-versa) é o ponto forte da trama, que a joga em um mundo sem crianças e com a economia colapsando. O deserto que se observa nas ruas é o eco da solidão de uma menina que perdeu seus pais e que tenta agora aos 16 anos reconquistar seu lugar no mundo. Para os que conseguirem se lembrar, a atriz Amandla Stenberg foi Rue em Jogos Vorazes, e a "passada de bastão" simbólica de uma personagem secundária de uma distopia para a protagonista de outra distopia é sintomática.

A interpretação de Stenberg curiosamente lembra Jennifer Lawrence em Jogos Vorazes. Sua postura de nunca se curvar ante adversidades, mas de sentir o peso em suas costas e ao mesmo tempo se entregar à nova realidade em que é jogada, além de ter que construir alianças com totais estranhos é o que torna sua jornada empolgante e séria na medida certa.

E o mais impressionante do feito de Amandla Stenberg é que, se analisarmos bem, no fundo não há nenhuma história que de fato una aquele grupo. O que significa que o roteiro preguiçoso de Chad Hodge, que estreia no cinema, encontra um elenco acima da média para o que precisa. Sendo claramente adaptado de um livro como esses que encantam os jovens com mundos onde eles são os heróis (no caso o livro homônimo de Alexandra Bracken), seus personagens aparecem prontos e estereotipados, o que acontece quando se tenta adaptar uma obra literária em poucos traços para o cinema: Há pouco tempo em tela para muitas páginas introspectivas.

Observe alguns personagens secundários, como uma caçadora de recompensa que os persegue na estrada, interpretada por Gwendoline Christie, a Captain Phasma dos novos filmes de Star Wars, e que aqui leva o suntuoso nome de Lady Jane e sai atirando em crianças. Ela tem duas participações curtas no filme e serve apenas para apresentar um conceito. Detalhes como esse fazem o filme soar incompleto a todo momento. É como se ele fosse feito para os leitores fãs e não se importasse com sua independência narrativa.

Outro detalhe que torna o embate do bem contra o mal extremamente banal são os vilões, maiores ou menores. Alguns atores, como o doutor interpretado pelo televisivo Wallace Langham (CSI: Investigação Criminal) surge para termos uma cara conhecida na hora de ser revelado como as crianças mais poderosas podem ser usada como instrumentos do mal. E o que dizer da enésima participação de um general sádico, conhecido no filme como "O Capitão"? A frase dita por Wade Williams "vamos precisar de outro médico" escancara a farsa não intencional a qual o filme se entrega.

Por outro lado, o núcleo de "Mentes Sombrias" recebe um tratamento especial. Stenberg, Dickinson, Miya Cech e Skylan Brooks, todos recebem tempo de tela para nos identificarmos com esses jovens e sua jornada rumo ao desconhecido. Eles são sobreviventes no sentido literal da jornada, e sua busca por um suposto refúgio de jovens coordenados pela incógnita conhecida como Fugitivo (Mark O'Brien) passa por alguns momentos de calmaria que permitem que o filme respire e nos acostumemos com essa turma. Podemos quase sentir que o tempo passou em torno deles, e suas pequenas despedidas, como da mini-van, sugerem esse salto praticamente forçado rumo à fase adulta.

A direção da sul-coreana Jennifer Yuh Nelson, conhecida pelas sequências da animação Kung Fu Panda da Dreamworks, tem a virtude de nunca se colocar no automático. Sua forma criativa de demonstrar como Ruby consegue entrar nas memórias das pessoas, ou como ela apaga memórias como fumaça, é um atrativo estético a mais. O uso de cores primárias para representar os tipos de crianças poderia ser levado muito a sério e cair no ridículo, mas Yuh Nelson parece sempre nos lembrar pelas expressões de seus personagens que há um pano de fundo muito sério acontecendo para que a coisa desvirtue para um enlatado infanto-juvenil.

Porém, apesar da distopia social no mínimo curiosa e de personagens que se tornam aos poucos cativantes, Mentes Sombrias possui o velho problema do gênero de ser esquemático e sempre nos levar para o formato bem contra o mal maniqueísta, previsível e... interminável. O que é uma decepção para quem se dispõe a investir algum tempo na aventura e descobrir que ela está longe de terminar.

Wanderley Caloni, escrito para Cinemaqui, 2018-08-06 00:00:00 +0000

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