Moulin Rouge

Eu me lembro a primeira vez que assisti esse filme. Foi no fim de semana de estreia. Era a última sessão de sábado. Eu ia de bike sozinho até o shopping. Sabia que nessa sessão era garantido ter lugar disponível, pois ela iria terminar de madrugada.

Haviam vários casais de pombinhos na sala com lotação pela metade. Entrei com um saco gigante de pipoca. Não sabia nada sobre o filme. Estava na época de assistir qualquer porcaria, crescendo meus conhecimentos cinéfilos. Eu nem era muito fã de musicais. Muito menos romance.

Começa o filme. Já estou com minhas mãos sujas de manteiga. A primeira sequência que apresenta a casa de shows parece uma versão da Disney do que é um prostíbulo. A sensação boêmia de não saber onde está, mas ao mesmo tempo curtir tudo isso, ainda é vívida em minha memória. Era a primeira vez que testemunhava a junção de duas músicas icônicas do pop e do rock sendo cantadas juntas, criando uma rima pra lá de original com Lady Marmalade de Christina Aguilera e uma adaptação do som do Nirvana Smells Like Teen Spirit. Logo depois há um pout-pourrit de frases sobre o amor trocadas entre Ewan McGregor e Nicole Kidman em cima de um elefante. Logo mais um número. Depois outro. Eu já estou em delírio.

Estamos em 2001. A montagem de vídeo-clipe está na moda. É a era pós-Matrix, com efeitos sendo a sensação. Sobe um sentimento poderoso sobre o brega e o pop que tomam conta do meu coração. A adaptação de Like a Virgin foi simplesmente a gota d'água. Este filme se torna oficialmente um show de horrores delicioso de se ver. Não consigo desgrudar os olhos e os ouvidos da tela.

Estou apaixonado. Uma paixão relâmpago como a de Nicole quando olha para Ewan, ainda garoto, cantando sem filtros. E Moulin Rouge é o musical mais gritantemente editado da história. Tudo é falso nesse filme que canta sobre o amor. O joguete é explícito e delicioso de se ver. Nicole está possuída na cena em sua suíte-elefante. McGregor acredita de fato ter a representação de todos os príncipes dos contos de fada encarnado em um boêmio escritor que conhece pela primeira vez absinto antes do que é o amor de verdade. Ele vive a ilusão enquanto nós a respiramos na sala de cinema, infectada com Moulin-Rougeness.

Hoje, 20 anos depois, revejo este filme com outros olhos. Olhos mais cínicos, talvez. Mas ainda gosto do que vejo. Não bateria palmas como bati (mentalmente) na sala de cinema naquele fim de noite, indo embora pedalando leve e feliz, cantarolando Material Girl. Lá eu queria acreditar no amor. Nossa época não cabe mais essa crença. Algo mudou ou eu mudei? Não consigo assistir a este filme como se fosse a minha primeira vez?

Wanderley Caloni, 2021-11-16 21:36:17 -0300

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