Nostalgia

Wanderley Caloni, 2021-03-14

Pedir para um ser humano médio ler algum autor russo já é maldade. Para um ocidental é como se houvesse algo místico inalcançável. Para um oriental há uma narrativa obrigatoriamente enfadonha.

Nos mesmos moldes, dizer para um espectador médio de cinema que se ele quiser transcender na cinefilia ele precisa assistir às obras de Andrei Tarkovsky já não é nem maldade: é tortura pura.

Mas é verdade. Cineasta russo da época soviética, seu pai ou avô foi um famoso poeta e seu filho agora segue os passos do pai (um documentário sobre Andrei de sua autoria passou na Mostra de SP de 2019). O diretor de Solaris, Stalker, entre outros, não é apenas um habilidoso cineasta fora do circuito narrarivo convencional: ele é um dos poucos poetas da sétima arte que figura entre os grandes.

Suas obras são imensas pérolas intimistas e pessoais que ganham a universalidade quase que por mágica.

Olhe Nostalgia, por exemplo. É um filme 100% sobre o período de vida do diretor em que ele se muda para a Itália e sente saudades de casa. Mas ele não é português para saber o que são saudades. Então ele filma um longa de mais de duas horas sobre a dor de ser um criador perdido em suas memórias do passado, sem certeza do que fazer de sua vida. Termina com mais uma obra-prima cheia de momentos icônicos do Cinema.

Mas verdade há de ser dita, o cineasta não é acessível. Seus filmes não são historinhas que dá para acompanhar em uma sessão pipoca. A história começa despretensiosa e meio solta, mas se você prestar atenção demais vai ter seus sentidos sequestrados e não vai conseguir mais voltar a ser normal. Você anseia por respostas? Não. Você não sente mais a necessidade delas, pois o caminho já é interessante por si só.

Criador de quadros e sequências que lembram pinturas do impressionismo, Tarkovsky realiza aqui uma obra menor com momentos maiores. Uma mescla mais coesa talvez fosse desejável? Não sei. Do jeito que está já é arrebatador, embora sonolento. Talvez uma versão "tudo explicadinho", como a juventude YouTube gosta hoje em dia, colocaria suas virtudes em segundo plano e suas fraquezas como o assunto do filme.

Assim como o sentimento de nostalgia, quando temos certeza, assim como o personagem de Meia-Noite em Paris, que a época não mais vivida (ou nunca vivida) é a melhor de todas, talvez seja o sentimento sobre o passado seu grande valor, e não o passado tal como realmente foi.

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