O Amor é Estranho

Esse é um filme sabotado por sua própria doçura e leveza. E, mesmo assim, se não tivesse o seu final, poderíamos estar diante de um drama melancólico. Apesar de ter participações de outros personagens em pé de igualdade, a história principal gira em torno de George (Alfred Molina), Ben (John Lithgow) e o casamento dos dois: uma linda cerimônia que reuniu toda a família para celebrar uma união já existente há 40 anos. Infelizmente, ela é o estopim para os problemas que o casal terá que enfrentar.

A Igreja, como de costume, tem que zelar pelos seus valores retrógrados e incompatíveis com a felicidade do maduro casal, e mesmo George sendo um cristão praticante ela é obrigada a dispensá-lo do coral onde leciona, o que coloca o casal em dificuldades financeiras. Ironias à parte, o padre já sabia de tudo há muito tempo, mas tem que tomar as devidas providências quando o fato acaba sendo publicado em uma rede social.

Os parentes, obviamente transtornados, tentam acolher Ben e George da melhor maneira possível enquanto eles procuram um novo lar. É quando descobrimos que a relação amorosa do casal não é o "estranho" do título, como uma ideia pré-concebida sobre filmes de temática gay. Isso nem é mais uma novidade na família, como dois simpáticos e inusitados policiais podem provar. O "amor" do título é o que se manifesta em cada um dos envolvidos. É a maneira torta com que uma sobrinha prefere não comentar o quão incômodo é o tio a desconcentrando o dia inteiro com suas conversas. É a paciência de George tendo que conviver com incessantes reuniões e festas em torno da sua cama improvisada: o sofá da sala. É a comovente carta com que George se despede de seus alunos, se livrando de qualquer sentimento de rancor ao som de Chopin.

O principal afetado na história, no entanto, em foco desde o início quando o vemos sorrir durante o matrimônio é o jovem e inseguro Joey (Charlie Tahan). Ele vive uma amizade controversa com Vlad (Eric Tabach) que preocupa seus pais de uma maneira não-ambígua. Ele é o gancho para uma belíssima rima que encontra sua força no segundo final já citado.

Infelizmente, o recheio dessa estrutura carece de algum empenho em se fazer notar, e apesar de entendermos a abordagem quase natural do diretor Ira Sachs em não se meter no andamento da história, fica óbvio que na conclusão ele desiste e parte com um ímpeto agressivo que teria funcionado muito melhor se tivesse sido feito antes. A grande virtude do filme reside muito mais no roteiro (assinado pelo próprio Sachs e o carioca Mauricio Zacharias, de O Céu de Suelly). A sua maneira de aproveitar todas as oportunidades de diálogo para ir revelando detalhes que vão compondo um mosaico muito mais complexo dos personagens é o que beneficia os atores.

E quem melhor aproveita os diálogos inspirados aliado à direção pouco invasiva são John Lithgow e Alfred Molina, que criam um casal absolutamente adorável e perfeitamente crível. Sentimos isso através dos detalhes na forma de se entenderem que esses dois estão juntos há muito tempo. O primeiro diálogo do filme é quando Ben acorda buscando seus óculos e George, já prevendo as futuras ruminações do parceiro, exclama um "hoje não!". Logo em seguida, ao tentar inutilmente conseguir um táxi, ambos têm uma breve discussão que logo é desfeita, dando a entender que não vale a pena ficar se desentendendo com trivialidades. O amor entre eles vale mais que qualquer atribulação passageira.

Dessa forma, mais uma vez voltamos em como o amor se manifesta das mais estranhas maneiras. É complicado considerar esse um ótimo filme sobre o tema apenas pelas suas nobres intenções, quando até a dispersa A Árvore da Vida consegue amarrar melhor sua trama. No entanto, O Amor é Estranho está longe de ser um trabalho irregular. Ele convence, embora com profundidade moderada.

Wanderley Caloni, escrito para ou com a ajuda de Cinemaqui, 2015-01-06 00:00:00 +0000

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