O Carteiro e o Poeta

Uma produção fofinha dos anos 90, lembro que foi sucesso na época, assisti a primeira vez em VHS. É um filme feito para o Oscar e para as multidões. Mario Ruopollo é um italiano tão doce e falso quanto o Pablo Neruda do filme. Veja como Philippe Noiret, o ator que faz Neruda, se veste como um poeta, sorri como um poeta e fala como gostaríamos que falasse um poeta. Ele está atuando em um filme e isso é muito claro para o espectador, mas em nenhum momento ele consegue nos convencer de que quem estamos vendo na tela é de fato Pablo Neruda, diferentemente de sua versão como projecionista de um cinema em um vilarejo da Itália no inesquecível Cinema Paradiso.

Já Massimo Troisi participa da direção e faz aqui um italiano de uma vila de pescadores que mal sabe ler e que quer se tornar um poeta para conseguir que as mulheres se apaixonem por ele. Imediatamente após ele falar isso ele entra em um restaurante onde a estonteante atendente está jogando pebolim e coloca a bola que caiu várias vezes no chão sujo em sua boca. Maria Grazia Cucinotta é colírio para os olhos, e é justamente por isso que ela não poderia existir nessa vila de pescadores nem se apaixonar por um semi-letrado que não tem onde cair morto.

A virtude de Troisi como ator é nos entreter enquanto aguardamos a história escrita a seis mãos convenientemente nos entregar um pequeno conto que une Neruda, "crítica social", uma música forçosamente colocada como tema e uma fotografia da Itália feita para cartões postais. Este filme é um cartão postal em VHS. Agora em DVD. E agora em streaming.

Ele deve continuar agradando multidões, mas tendo como pano de fundo o saudosismo dos simples e doces anos 90. É um filme fácil de digerir pelas emoções que ele deseja transmitir, mas difícil de engolir por causa do seu formato feito para ser embalado em uma lata e vendido para Hollywood e para o resto do mundo.

Wanderley Caloni, 2020-03-19 00:00:00 +0000

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