O Círculo

Wanderley Caloni, 2019-06-21.

Uma sociedade realmente sexista existe no Irã e o diretor Jafar Panahi filma a opressão como um documentário em tempo real. É um plano-sequência com cortes. A transição de personagens apenas reforça a universalização da violência sistematizada contra as mulheres em mais um dia nessa sociedade que não tem como enxergar suas falhas assim como um peixe não enxerga a água em que vive.

O roteiro de Kambuzia Partovi é um primor de hiper-realismo, pois apresenta diálogos simples, ditos no limiar entre o cinematográfico e o drama dos comuns. As informações que o espectador vai caçando aos poucos serve de gancho para acompanharmos a ação. Às vezes sabemos de menos, às vezes demais, mas Partovi faz questão de se certificar que é sempre o suficiente para detectarmos as barreiras que a mulher encontra nesse mundo onde mulheres não podem andar sozinhas na rua, desacompanhadas de um homem, sem chamar a atenção de civis e policiais.

A atriz Fereshteh Sadre Orafaiy realiza um mergulho profundo em sua personagem, Pari. Note sua compulsão em tentar pegar um cigarro e fumar (e note como esse pequeno gesto vai se encaixando durante todo o filme como símbolo da opressão). Apenas a observe zanzando inquieta pelas paredes de um hospital aguardando por qualquer ajuda, e note em seguida todas as expressões e gestos que a atriz realiza sentada em um banco, inconformada com a arapura que se colocou (os detalhes de sua história é melhor serem degustados aos poucos pelo espectador).

O Círculo é sobre o fluxo ininterrupto de violência sistematizada e legalizada contra a mulher, mas poderia ser o retrato de qualquer círculo vicioso onde seres humanos não são tratados como tais, e precisam dentro de suas capacidades sobreviver. É um trabalho intenso, impecável e admirável de Cinema.

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