O Destino de uma Nação

2018-02-26 · 4 · 816

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Esta é a versão cinematográfica de um momento na história da Inglaterra que talvez lendo os livros não tenha tanto apelo emocional quanto um Gary Oldman incorporando totalmente o tom feroz, bonachão e icônico de Sir Winston Churchill, que abraça na marra o espírito inglês de sobrevivência (ou insanidade). Se isso não for patriotismo, nada mais será.

Centrado nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial (apenas se você pensar na Europa), quando o primeiro-ministro debilitado Neville Chamberlain renuncia e em seu lugar a figura mais inóspita de Churchill surge, Hitler e sua Alemanha nazista marcham em uníssono derrubando países em um piscar de olhos. Tomando conta da França e encurralando o exército inglês aliado na minúscula costa de Dunkirk, a até então silenciosa ilha precisa dizer ao mundo o que irá fazer frente a ameaça de um novo império surgindo.

E essa acaba sendo, como é de praxe, uma pergunta complexa dentro do Parlamento inglês. Tendo perdido a confiança pelas políticas desastrosas de batalhas do passado, Churchill é a figura britânica que mais se assemelha a um bode expiatório inglês, colocado como única opção viável no momento para tentar manter a unidade política do governo. E percebemos como isso deve ter sido difícil para ele, pois além dos embates políticos ele ainda precisa manter um orgulho inglês decadente frente a uma multidão de ovelhas temerosas e egoístas. O “bom senso” está a ditar as últimas decisões de uma Inglaterra ainda livre.

Esse pelo menos é o tom do filme dirigido por Joe Wright (Orgulho & Preconceito) e escrito por Anthony McCarten (do regular A Teoria de Tudo), que explora esses momentos históricos em uma sombria e triste Londres. Sempre se mantendo em uma luz fraca, que faz parecer que os britânicos estão nesse momento ainda na penumbra a se anunciar (maior verdade não há), Darkest Hour mostra esses momentos com a solenidade que o momento histórico merece e dificilmente nos coloca na intimidade dessas pessoas, sempre privilegiando a cartilha formal dos acontecimentos.

Há apenas dois, ou três, brilhantes momentos, no filme todo. Em um deles vemos os três arquitetos do poder, primeiro-ministro atual, anterior e o que seria, planejando a negociação de paz. Nele vemos toda a complexidade inerente a uma decisão dessas que impacta a vida de milhões que essas pressoas precisam enfrentar em tempo recorde. Na cena imediatamente seguinte vemos Churchill encurralado no banheiro, ligando para o presidente americano e implorando por uma frota. O enquadramento dessa cena é belíssimo; vemos seu isolamento demonstrado pelo cubículo isolado de tudo e de todos, com o telefone e um alarme de incêndio, ambos em seus ombros, fora a tomada onde vemos o gigantesco rosto do primeiro-ministro se tornar grande, mas pequeno ao mesmo tempo, olhando levemente para baixo.

E há o momento catarse, que se passa em um metrô, e que vocês precisam ver e sentir com seus próprios olhos e coração. Não é um momento gratuito, contudo. Ele é tão necessário quanto os momentos intimistas de Dunkirk, que Christopher Nolan soube tão bem empregar para daí subir para o alto escalão da pátria. Aqui é feito o caminho contrário, e é rápido, mas vale cada segundo. Quem dera os países tivessem líderes como os que são pintados nesse filme.

Gary Oldman, como sempre, é um camaleão. Aqui ele tem uma “pequena” ajuda da maquiagem, o que o torna muito próximo da figura clássica de Churchill. Mas nada fica entre ele e o espectador quando ele emprega não apenas um sotaque engraçado e peculiar, mas quando ele usa de seus maneirismos com propriedade, como o uso das sobrancelhas e o jeito curioso de andar. Oldman se parece cada vez menos com o ator e mais com o primeiro-ministro conforme a história avança. Talvez ele se tenha se esquecido em um momento ou dois quem é, e para a imensa virtude deste longa revemos Winston ressucitado.

A trilha sonora de Dario Marianelli não é primorosa, apenas adequada na maioria das vezes, mas auxilia a aliviar um pouco a pesada fotografia de Bruno Delbonnel, que exagera nas sombras, nas formas e nas meia-luzes que permeiam toda a trama. Até quando há cenas externa o que mais vemos são sombras de trincheiras e sombras de aviões sobrevoando uma área. Há uma transição interessante entre essas trincheiras e o rosto de um soldado morto jogado provavelmente nas areias de Dunkirk, mas esse efeito estético é gratuito e em nada favorece a história.

Que é uma história adulta. Este não é um filme de guerra, mas um filme de política, que é a guerra com etiqueta. Até o Parlamento está mais educado do que de costume (A Dama de Ferro, 2011), e olha que estão à beira de tensos momentos. Darkest Hour não possui a força ultra-realista de Dunkirk, mas permite enxergarmos a parte não-vista do longa de Nolan. Uma dupla sessão de respeito, com ambos indicados ao Oscar desse ano.

Darkest Hour (United Kingdom, United States, 2017). Dirigido por Joe Wright. Escrito por Anthony McCarten. Com Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Lily James, Ronald Pickup, Stephen Dillane. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·