O Diario De Uma Camareira

Este é um rascunho e está sujeito a mudanças.

Meu primeiro Luis Buñuel, este maluco surrealista (como deve ser todo surrealista) que abdica da razão para conseguir atingir a emoção freudiana. Com medo de se tornar o tipo mais comum e surrado das teorias do psicanalista, o neurótico, o cineasta escreve errado por linhas apagadas e conta a história de uma camareira deliciosa de Paris e como todos os homens do interior adorariam fazer qualquer coisa com ela.

A fascinação canina dos homens pelas mulheres no filme chega no nível psicótico, mas o filme é dos anos 60 e, portanto, mais bem comportado do que nós poderíamos esperar hoje em dia de um filme falado em francês. Mas o que ele insinua é senão pesado muito atípico. O sexo é tratado como gostaríamos que fosse tratado se os americanos não tivessem institucionalizado o pudor como patrimônio do cinema ocidental, mas ao mesmo tempo a violência contra a mulher e as crianças atinge um nível alarmante demais até para o mais apaixonado pelos ideais libertinos.

A violência do crime, mesmo sem ser totalmente explícito, impacta o resto da produção. Após esse momento esperamos por mais lógica, e Buñuel nos entrega justamente o contrário, com personagens que mudam de ideia a todo momento, fugazes em seus valores. Acontecimentos podem ser reinterpretados após o final, e mesmo que o fossem nada muda. O truque de uma história sem pé nem cabeça é iludir o espectador como se ela de fato fizesse sentido.

Igreja e Estado ridicularizados juntos. Como deve ser. Mas há tanto nonsense em uma história simples que é como se, alvos de escárnio ou não, não fizesse muita diferença, pois não existem modelos do certo neste filme. Apenas modelos de como a vida pode ser bizarra, mesmo que no melancólico campo.

Esses movimentos de câmera do cineasta espanhol, desejando ser inovadores, mas terminando por chamar atenção para si, hoje vira uma atração, ainda que na época pudesse ter seu valor. Porém, não durou como Cidadão Kane. E nem deveria. O surrealismo acabou mais rápido que o Dogma 95. E no cinema sua única marca lembrada é um olho sendo cortado por uma navalha. Bons tempos. Só que não.

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