O Escafandro e a Borboleta

2019-09-12 · 3 · 476

Este ainda é um rascunho publicado prematuramente e está sujeito a mudanças substanciais.

Como adaptar a biografia de alguém que mexe apenas um olho? Esta é uma história real, emocionante para alguns, tendendo ao tédio para outros (eu incluso), mas que no filme de Julian Schnabel consegue nos convencer a embarcar nessa viagem filosófica de auto-conhecimento humano.

Editor da Elle, e portanto sempre paparicado por belas mulheres, Jean-Dominique Bauby sofre um derrame e perde o movimento de todo seu corpo, com exceção de seu olho esquerdo, que vira, junto de sua audição, sua única janela para o mundo. Ele aprende a se comunicar com o olho, mas o seu eu, ou o que era o seu eu, está preso em seu corpo inerte e inútil.

Este filme não fala muitos detalhes da vida de Jean-Dominique para construir uma trama, pois ele prefere deixar o espectador enclausurado nas mesmas condições do protagonista. E ele faz isso colocando uma câmera para representar o ponto de vista de Dominique, em boa parte do filme. A outra parte é a visão comum do ator Mathieu Amalric e uma preparação e maquiagem que tornam o drama completamente arrebatador.

Mas este pequeno buraco onde entra a luz, a câmera/olho, é a melhor coisa do filme. Ouvimos os pensamentos de Dominique conforme ele vai recobrando a consciência e entendendo sua situação. Acompanhamos as visitas de pessoas ligadas a ele e seu parco desenvolvimento com duas lindas fisioterapeutas. Alguns momentos são engraçados, como a falta de jeito de um amigo em ler a cartela de letras que permite que o olho consiga nos informar através de piscadas letras de palavras e frases. Outros momentos poderiam ser emocionantes se você se identificasse com um rico editor de uma revista famosa que teve uma vida familiar problemática e que agora observa impotente seus filhos sentindo por ele.

A beleza de O Escafandro e a Borboleta é não se render à auto-piedade, o que torna a história de Dominique uma história de superação, mesmo que ele não consiga sair de onde está. Isso porque o núcleo da trama é se ele irá conseguir se adaptar a essa situação. E enquanto isso, como espectadores cinéfilos, observamos como o Cinema deve se render à forma de acordo com o tema, e é por isso que os enquadramentos são tortos, as pessoas estão sempre muito próximas e os movimentos são irregulares, frequentemente com a tela manchada ou molhada.

O diretor Julian Schnabel realiza uma adaptação visual arrebatadora desde o começo nos colocando na visão de alguém que não possui mais nenhuma possibilidade de viver no mundo que observa, exceto suas piscadas para fora e sua imaginação para dentro. Dominique sente que precisa comunicar o que está sentindo por dentro, para que o mundo entenda essa relação enigmática que faz com que o ser humano se adapte ao que ele tem para viver. Ele consegue em seu livro, e Schnabel agora consegue no Cinema.

The Diving Bell and the Butterfly (France, United States, 2007). Dirigido por Julian Schnabel. Escrito por Ronald Harwood, Jean-Dominique Bauby. Com Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Patrick Chesnais, Niels Arestrup. · IMDB · Letterboxd · More Details · cinema · draft · movies · Twitter ·