O Filho de Saul

Como não poderia deixar de ser, depois do Oscar dado a Birdman, o plano-sequência -- aquela técnica de filmar que evita cortes a todo momento -- voltou à ativa. E em O Filho de Saul, assim como fez Alejandro González Iñárritu, o diretor estreante László Nemes também está preocupado com a narrativa subjetiva -- aquela que a câmera toma o ponto de vista do personagem. Em ambos os filmes, por um bom motivo. Aqui, porém, soa ainda mais esquizofrênico do que o próprio personagem fantasioso de Michael Keaton.

O que o filme está nos dizendo a todo momento através de sua técnica é: olhe para este homem, o Saul do título (Géza Röhrig). Ele asfixia e incinera seu povo para que ele próprio não morra. Mas ele mesmo já não sente mais nada. Ele já está à mercê do horror do Holocausto. Apenas segue ordens. Até que observa um menino que sobreviveu à câmera de gás sendo asfixiado pelo médico que o examina. Ele decide (não sabemos) que é seu pai, e tenta de todas as formas realizar para ele um enterro judeu, com direito a reza do rabino e, imagino, um lugar reservado no céu.

Ao observar o que ele faz para conseguir seu objetivo é passear no estilo jogo de tiro de primeira pessoa através de diferentes lugares e diferentes funções na máquina de extermínio em massa nazista. É ouvir gritos de ordem de todos os lados (através de uma mixagem de som tridimensional inquieta), de alemães igualmente alheios à loucura, de judeus cooptados pela chance de viver um pouco mais e de russos, preocupados com a única coisa sã que é possível fazer na situação que se encontram: tentar fugir.

As cenas mais horrendas, de corpos nus amontoados e sendo arrastados, são mal vistas, pois estão fora de foco e filmadas em uma tela quase quadrada com uma profundidade de campo rasíssima (o que quer dizer que podemos ver com exatidão praticamente apenas o que está na mesma distância de Saul). Isso faz sentido. Sempre cabisbaixo, seguindo ordens sem fazer muitas perguntas, Saul é a representação de como eram tratados os escravos judeus, que, pertencentes a um Kommando apenas (um grupo de trabalhadores liderados por um soldado alemão), quase nunca enxergavam o todo. Saul nos dá esse privilégio graças ao roteiro maniqueísta, do próprio László e Clara Royer, mas suficiente pela sua história.

Há pelo menos dois momentos brilhantes no longa, tanto pela dificuldade técnica (são dois planos-sequência) quanto pela força da narrativa: 1) quando Saul volta à sala de autópsia e encontra companhia e 2) quando ele encontra seu rabino, em meio ao caos das "horas extras noturnas" (o que talvez indique que estamos próximos da derrota alemã, quando a velocidade do genocídio foi acelerada).

Com um final enigmático pelo seu simbolismo "au passant", muitos sairão do cinema inquietos por uma resolução mal acabada. Porém, estes perderam o fio da meada em seguir a história convencional de "pai que quer salvar filho no além-túmulo". Você pode assistir o filme assim, e ele funciona bem 99% do tempo com essa história (exceto o final). Porém, perceba como, mesmo se admitirmos a versão oficial da história, há algo que merece ser analisado em um homem que se preocupa mais com os mortos do que com a própria vida, e dica: não é heroísmo.

O filme tem muitos momentos "olhe para esse homem", e talvez o mais aterrorizante é que olhamos para ele e não vimos nada, exceto uma obsessão cega pela sua crença. O que pode ser confundido com mais um filme denunciando a crueldade nazista, no fundo quase não a mostra, preferindo focar na loucura de uma religião, que ambígua como ela é, pode manter viva a esperança de algo melhor ao mesmo tempo que sacrifica os vivos que ainda preferem viver o aqui e agora. Acho que qualquer semelhança com críticas ao conflito do Oriente Médio deve ser analisada com cuidado, mesmo não parecendo muito longe da verdade.

Wanderley Caloni, escrito para ou com a ajuda de Cinemaqui, 2016-01-28 00:00:00 +0000

reviews cinemaqui movies discuss